terça-feira, 12 de setembro de 2023

Um ano de TRANCAÇO em defesa da Casa Comum

                                                                    


                                                                 Por Equipe de Comunicação da OPA

 

            Há exato um ano, no dia 12 de setembro de 2022, a Organização Popular – OPA, unificada a sindicatos e movimentos populares, realizávamos o primeiro Trancaço, com o fechamento de três rodovias estaduais do Ceará e um protesto no Palácio da Abolição – sede do governo do estado –,  em Fortaleza, simultaneamente.

             O Trancaço ocorreu depois de várias tentativas frustradas de marcarmos uma audiência com o governo do estado para encaminharmos a resolução de nossa pauta de reivindicações. O não encaminhamento da solução para os problemas sentidos significou, entre outras, o aumento das dificuldades de sobrevivência de milhares de famílias trabalhadoras. Participaram do Trancaço indígenas, quilombolas, Sem Terra, Sem Teto, atingidos/as por barragem, professores/as, pescadores/as, agricultores/as, catadores/as de material reciclável, operários/as, juventude periférica, gente do campo e da cidade.

            Nossos objetivos eram dois: primeiro, o Fora fascistas e seus aliados!, lembrando que estávamos em pleno período eleitoral. O segundo foi cobrar a tal audiência da então governadora Isolda Cela, hoje integrante do Ministério da Educação, do Governo Federal. O primeiro objetivo foi naquele momento conquistado, derrotamos eleitoralmente os fascistas no executivo, tanto a nível federal, quanto estadual. Já em relação ao segundo objetivo, fomos tapeados. O governo se comprometeu em nos receber, mas, ao chegarmos ao local marcado, fechou a porta em nossa cara.

            A pauta da OPA e das demais organizações envolvidas no Trancaço está diretamente ligada ao que o Papa Francisco chama de três “Tês”: Teto, Terra e Trabalho. O capitalismo avança em todo o estado contra o povo de uma forma brutal, destruindo vidas e causando bastante sofrimento. Sendo que boa parte de seus projetos recebem aval e investimento dos governos municipais, estadual e federal. “Dinheiro de nossos impostos, de nosso suor, custando nosso sangue!” A luta assim se torna inevitável, uma vez que se transforma em uma questão de vida ou morte para os primeiramente atingidos, mas não somente. Todas as pessoas que habitam o planeta são afetadas de alguma forma. Por esse motivo, o Trancaço representou o que denominamos de defesa da Casa Comum, a defesa da vida em todas as suas dimensões.

Por exemplo: quando, em nossas ações, gritamos que água e terra fiquem com o povo, para a produção de alimentos saudáveis, e não com as empresas do agronegócio, que envenenam e destroem tudo que encontram pela frente, estamos dizendo um “Sim!” à vida e um “Não!” à morte matada. Esta luta se constitui em suspiro de esperança, mesmo para pessoas que a desconhecem. Desconhecem, mas são atingidas pelo alimento envenenado que consomem, pela violência decorrente da extrema violência que representa a existência do latifúndio, e por aí vai.      

            Com a rasteira que levamos do governo, mais ou menos quinze dias depois, realizamos o Trancaço número 2. Desta vez nos reunimos todos e todas numa rodovia nas imediações do Porto do Pecém, região metropolitana de Fortaleza, por onde se escoa parte da produção do grande capital. Diante da pressão, novamente a governadora se comprometeu em receber nossa comissão, para depois sumir de novo e sua assessoria não mais responder nossas mensagens.

            O ano se passou e um novo governo foi eleito. Com as necessidades do povo se agravando e a ganância capitalista espumando mais destruição pelo canto da boca, organizamos, em Fortim, a I Celebração da Luta em Defesa da Água, do Território e da Casa Comum, isso em março, no Dia Mundial da Água. Lá, foi lida uma carta destinada ao governador Emano de Freitas, que, depois de muita pressão, comprometeu-se em nos receber até o final de abril. Mas eis que chegamos a setembro e a história se repete, com mais uma mentira, mais uma vez o governo nos tapeando, mais uma palavra perdida por entre a malha do ralo da politicagem e dos acordos lodosos com a classe dos capitalistas.

Importante frisar que as três enganações não nos abateram. Muito pelo contrário. A indignação cresce proporcionalmente ao fortalecimento de nossa união e de nossa determinação para concretização de mais uma jornada. Mais comunidades e setores oprimidos se chegam, encontrando na luta unificada a luz do raiar de um novo dia.

Até porque só pode ter sustância e ser verdadeira a política de combate a fome quando se ataca os projetos que causam este mal; não quando os promove. Até porque só pode ter sustância e ser verdadeira a democracia quando o povo participa das decisões que interferem diretamente nos rumos de sua vida.

            Por isso é que celebramos um ano de Trancaço com muito entusiasmo. Por isso seguiremos lutando em defesa da Casa Comum com a fé revolucionária própria daqueles e daquelas que anseiam por dias de vida plena para todas as pessoas.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

COMUNIDADES ATINGIDAS POR BARRAGEM APRESENTAM CARTA-DENÚNCIA E AVISAM: “NÃO SOMOS PEIXE. VAMOS LUTAR!”


 

Por Equipe de Comunicação da OPA – Organização Popular

           

            As comunidades atingidas pela Barragem Fronteiras, em Crateús-CE, parecem ter perdido a última gota de paciência que lhes restava. E olha que há tempos foram mergulhadas num oceano de sofrimentos! Isso porque a obra continua a pleno vapor, com previsão de conclusão para meados de 2024, enquanto direitos fundamentais das famílias atingidas seguem represados.

“A angústia é enorme. Estamos há muitos anos assim. Dois amigos meus entraram numa depressão profunda quando perceberam que as promessas eram só para nos enganar. Eu dizia para eles que íamos sair dessa, que Deus não nos abandonaria. Mas eles não aguentaram e morreram. Agora fizemos esta carta contando nossa história. Não somos peixe, viu?! Vamos lutar!”, relatou seu Francisco de Assis, de 74 anos de idade, agricultor e morador de uma das comunidades atingidas.

            A referida carta conta um pouco quem são as famílias atingidas:

Somos mais de 200 comunidades tradicionais localizadas em Crateús, somos milhares de famílias. Em nossas terras nasceram e se criaram gerações e mais gerações de trabalhadores, gente simples do campo. Sobrevivemos ao longo das décadas graças ao que a natureza nos dá. Graças à agricultura, alimentamos também as pessoas que moram na cidade.”

            E segue:

“...Nunca ninguém nos disse claramente o que vai acontecer com nossas vidas depois da barragem construída. A parede já está sendo erguida e a nós, as pessoas primeiramente atingidas, nos são negados os direitos mais básicos. (...) Para onde irão nossas famílias? E em que condições? O que existe muito aqui, antes mesmo que o primeiro tijolo fosse assentado, é enganação, são promessas não cumpridas.”

            No final, mais uma grave denúncia:

“Para completar, ficamos sabendo que esta água não é para a gente necessitada. Vem para o agronegócio, aquelas empresas que devoram e envenenam tudo que encontram pela frente, e, principalmente, para servir de suporte hídrico para  grandes usinas mineradoras que pretendem se instalar na região. A de Santa Quitéria é uma delas. Obras feitas com dinheiro público, dinheiro nosso, mas a serviço de um desenvolvimento que só nos adoece e nos mata (mulheres, homens, crianças, jovens, adultos, idosos). E isso tudo para quê? Para enriquecer um tantinho de pessoas já muito ricas. Eles não se preocupam com a vida. Eles só enxergam o lucro!”

         A Carta, elaborada e debatida em assembleias nas comunidades atingidas, chegará à cidade de Crateús durante este mês de setembro. Será apresentada em universidades, escolas, comunidades, igrejas.

 Todos precisam saber da verdade. Não somos contra a água, mas ela tem que estar em função da vida, do bem-estar da população, e não da cobiça de alguns. Nossas famílias são as primeiras atingidas, mas, se não nos dermos as mãos agora e lutarmos juntos, futuramente não seremos as únicas com problemas. As pessoas da cidade estão no mesmo barco que a gente”, declarou Maria Helen, atingida e membra da coordenação local da Organização Popular – OPA.    

            A construção da Barragem Fronteiras é gerida com recursos dos governos federal e estadual. As comunidades atingidas, juntas a outras tantas espalhadas pelo estado do Ceará, que passam por tribulações semelhantes, há muito que lutam por uma audiência com o comando destas esferas públicas. No caso de Crateús, o governo federal enviou funcionários sem poder de decisão para entreter as comunidades; e o estadual, este prometeu receber uma comissão da OPA, com a coordenação de todas as comunidades, para encaminhar a pauta de reivindicações até o mês de maio. Já estamos em setembro e, em total desrespeito à vida de milhares de famílias, nenhum retorno foi dado.

 

Leia aqui a Carta na íntegra


CARTA ABERTA DAS COMUNIDADES ATINGIDAS PELA BARRAGEM DE FRONTEIRAS AO POVO DO CEARÁ

 

 

Dirigimos esta carte principalmente ao povo do Ceará, para que todos tomem conhecimento do que há décadas vem acontecendo conosco e que, por se encontrar de alguma forma em situação semelhante ou por sensibilidade, possamos nos dar as mãos e lutarmos juntos contra o mal que nos atinge.

Nós somos mais de 200 comunidades tradicionais localizadas em Crateús, somos milhares de famílias. Em nossas terras nasceram e se criaram gerações e mais gerações de trabalhadores, gente simples do campo. Sobrevivemos ao longo das décadas graças ao que a natureza nos dá. Graças à agricultura, alimentamos também as pessoas que moram na cidade.

Somos famílias ribeirinhas. O rio Poty passa pertinho de nós, bem antes de desaguar no Piauí. Em nossas comunidades, como uma grande família, estabelecemos laços de amizade e de solidariedade. Aqui nos conhecemos todos pelo nome. Ou melhor, pelo apelido. Cada canto, cada pedaço de chão carrega importantes histórias de nossas vidas.

Crateús é tida como região de pouca água. Por esse motivo, é de longa data que se fala na construção de uma grande barragem que acabaria com o problema da seca. Ao menos é o que pregavam, e continuam pregando, os doutores do poder. O que não sabíamos era que tais promessas vinham carregadas de mentiras e que por elas pagaríamos um alto preço.

A Barragem de Fronteiras chegou. Está sendo construída sobre nossas comunidades! Com crimes!

O primeiro deles é que ninguém nos perguntou se aprovávamos.

O segundo é que nunca ninguém nos disse claramente o que vai acontecer com nossas vidas depois da barragem construída. A parede já está sendo erguida e a nós, as pessoas primeiramente atingidas, nos são negados os direitos mais básicos.

Os valores que chamam de “indenização” não cobrem, nem por baixo, aquilo que precisamos para estabelecer, com a mínima dignidade, nossas vidas em outros locais. Os reassentamentos não andam e as irregularidades cometidas pelos órgãos “competentes” inundam nossas comunidades de angústia.

Já não nos dedicamos com a mesma alegria ao cultivo da terra e à criação de animais. Não podemos reformar nossas casas e nenhuma obra dos governos chega por aqui desde que isso tudo começou. Acreditem: até o direito de enterrar nossos mortos está ameaçado! “De que adianta? Tudo vai ficar debaixo d’água mesmo”, é o que costumamos ouvir.

A barragem está sendo erguida e nossos direitos continuam represados! Quando ela for concluída, para onde irão nossas famílias? E em que condições? O que existe muito aqui, antes mesmo que o primeiro tijolo fosse assentado, é enganação, são promessas não cumpridas.

Para completar, ficamos sabendo que esta água não é para a gente necessitada. Vem para o agronegócio, aquelas empresas que devoram e envenenam tudo que encontram pela frente, e, principalmente, para servir de suporte hídrico para  grandes usinas mineradoras que pretendem se instalar na região. A de Santa Quitéria é uma delas. Obras feitas com dinheiro público, dinheiro nosso, mas a serviço de um desenvolvimento que só nos adoece e nos mata (mulheres, homens, crianças, jovens, adultos, idosos). E isso tudo para quê? Para enriquecer um tantinho de pessoas já muito ricas. Eles não se preocupam com a vida. Eles só enxergam o lucro! Neste sentido, nós, eu e você, seremos todos e todas impactados!

Exigimos das autoridades constituídas uma resposta séria e satisfatória. Queremos os direitos das famílias primeiramente impactadas integralmente assegurados. A água não precisa ser envenenada, a terra não precisa ser assassinada. Sabemos e podemos produzir alimentos saudáveis, cultivar a terra sem degradá-la, gerando trabalho digno, saúde e renda para milhares de famílias. Para isso, é preciso que se garanta a qualidade da água, redefinindo seu uso prioritariamente para a população necessitada e para a pequena produção de base familiar-sustentável. Podemos ser exemplo para o mundo!    

Os dragões são feios e cospem agrotóxico e morte silenciosa, mas não são indestrutíveis. Eles também têm medo, muito medo! E sabe de quê? De nossa união e disposição para lutar. Pois será assim, juntos e juntas, que os enfrentaremos e os derrotaremos.

Venha, entre em contato, participe você também desta resistência.

São nossas vidas que estão em jogo. O futuro de dignidade que tanto desejamos não espera. O futuro é agora!

 

Crateús, janeiro de 2023.

domingo, 27 de agosto de 2023

ENQUANTO COMUNIDADES RECEBEM AMEAÇAS DE MORTE, GOVERNADOR DO ESTADO ACENA PARA OS AMEAÇADORES

 


Por Equipe de Comunicação da OPA

 

É emblemático! Enquanto oitenta famílias agricultoras Sem Terra saíram às ruas de Jaguaruana (26/08), entregando panfletos e conversando com a população a respeito da luta que ora enfrentam no município para produzir alimentos saudáveis, recebendo todo tipo de ameaça da parte de empresários do camarão (carcinicultores) e políticos locais, a imprensa noticia que o governador do Estado do Ceará, Elmano de Freitas, acena para ampliar privilégios ao mesmo grupo de empresários.

A atividade empresarial de criação de camarão é uma conhecida devastadora da natureza. Além do uso intenso de produtos químicos, do alto desmatamento e de uma absurda concentração da propriedade da terra, pesquisas revelam que, para se produzir 01 Kg de camarão neste modelo, são necessários de 60 a 80 mil litros de água.

“Estão matando nosso rio, envenenando nossa terra. A carcinicultura devasta tudo que encontra pela frente! Aí quando nós, agricultores, ocupamos as fazendas abandonadas e degradadas por eles para produzir alimentos saudáveis e criar nossos filhos, nos ameaçam de morte. Dizem que vão expulsar a gente na bala. Mas nós vamos resistir. É direito nosso, e agora estamos aqui na rua explicando isso para o povo”, denuncia emocionada Solange Silva, da Ocupação Gregório Bezerra.

No panfleto distribuído constam imagens da produção de alimentos nas duas comunidades onde moram as famílias que participaram da panfletagem: a Gregório Bezerra e a Ocupação Dom Fragoso.

“Produzimos na terra recebendo ameaça toda hora, quando deveríamos era receber incentivos, que são nossos direitos. Todos os dias nós pegamos água a 2 quilômetros na carroça para aguar as plantas. Dois para ir, dois para voltar. Imagina isso aqui com um poço, como seria? Já lutamos por mais de uma, duas, três vezes para o governador receber nossa comissão para encaminhar nossa pauta. Ele promete que vai receber, mas nunca recebe. Como acabar com a fome sem resolver a questão da terra, me diz? Como?!, relatou seu Zé Catarina, da Ocupação Dom Fragoso.

Segundo a imprensa, o governador do Ceará trabalha para simplificar licenças ambientais para a carcinicultura, o que acarretaria uma devastação ainda maior.

As duas comunidades fazem parte da Organização Popular (OPA) e, juntas a outras tantas espalhadas pelo Ceará, que passam por problemas semelhantes, lutam para que os governos estadual e federal encaminhem a solução das reivindicações apresentadas.

sábado, 8 de julho de 2023

Beira-Rio resiste e amplia apoios contra despejo

                      


                      

                  Thales Emmanuel, militante da OPA.


            Quando foi perguntado em assembleia lotada se “medo ou confiança”, escutou-se numa só voz: CONFIANÇA!

As 53 famílias da Ocupação Beira-Rio (Teresina-PI), por completo, as mais de 20 crianças, as gestantes, os idosos, as mulheres e os homens ergueram suas vozes em assembleia ontem à noite para reafirmar que não vão sair de sua terra, de suas casas. A Ocupação Beira-Rio resistirá até o fim.

A coragem vem da necessidade, mas não somente. Vem igualmente da firme compreensão, fortalecida com a construção da resistência, de que gente deve ser tratada como gente.

          O dia de ontem foi bastante corrido, muitas reuniões com apoiadores. Quem é sério não tem como não abraçar uma luta tão justa quanto a do direito humano à moradia. Padres, pastores, mãe de santo, deputado, comunidades, organizações populares, sindicatos, o arcebispo de Teresina... Incontáveis são as entidades e personalidades, de vários estados do Brasil, que declaram que estão do lado da vida e contra o despejo. Em conversa realizada na parte da manhã com comissão da comunidade, Dom Juarez lembrou que “A terra é dom de Deus, e os dons de Deus são para todos”.


           Amanhã, domingo, será o Dia D Poder Popular! Uma manhã de atividades culturais organizada pela e na comunidade. É muita coisa para caber aqui neste pequeno texto. É melhor ir conferir de perto. Começa às 8 horas. Somos todos e todas convidadas!

Sobre o juiz que, atendendo a solicitação da prefeitura, ordenou o despejo: foi promovido. No capitalismo, a crueldade é condecorada. Agora, outro magistrado julga o caso: o senhor Lirton Nogueira Santos.

           Para finalizar, a comunidade faz questão de advertir que “Os poderes constituídos serão os únicos culpados por qualquer atentado cometido contra a vida de qualquer pessoa da Beira-Rio”. Porque é certo que ENQUANTO MORAR FOR UM PRIVILÉGIO, OCUPAR É UM DIREITO!

quarta-feira, 5 de julho de 2023

QUANDO NEM LIXO DEVE SER JOGADO NAS RUAS, FAMÍLIAS SÃO NOVAMENTE AMEAÇADAS DE DESPEJO EM TERESINA!

                                          Coordenação da Organização Popular – OPA.


 

A Ocupação Beira-Rio, localizada na Zona Sul de Teresina-PI, encontra-se mais uma vez ameaçada de despejo. Sexta-feira passada, primeiro de julho, um oficial de justiça entregou uma liminar de reintegração de posse – uma ordem de despejo –, estabelecendo prazo de 15 dias para contestação. Desde então, as famílias se movimentam no sentido de barrar esta absurda decisão judicial proferia pelo senhor João Gabriel Furtado Baptista, da 2° Vara dos Feitos Públicos da Comarca de Teresina.

A primeira ação de despejo contra a comunidade ocorreu há pouco mais de um mês, quando agentes da Superintendência das Ações Administrativas Descentralizadas (SAAD) e da Guarda Municipal, sem qualquer mandado judicial ou aviso prévio, na base de muita violência, destruíram e atearam fogo em barracos e expulsaram os moradores. As famílias, que lutam pelo direito humano à moradia justamente por não terem para onde ir, retornaram e reocuparam corajosamente a área. O terreno é registrado como sendo de interesse público e desde a década de 1970 encontra-se abandonado, sem cumprir nenhuma função social.

A mesma prefeitura, depois da repercussão do feito, que resultou, inclusive, na prisão de uma liderança comunitária, pareceu “arrependida” e publicou matéria oficial que dizia ter doado o terreno para as famílias.

“Não dá para confiar nenhum pingo! Ou o povo acredita no povo, na sua organização, na sua união, na sua luta, ou vamos passar mais quinhentos anos de massacres e enganação”, declarou Francisca Tatiana, moradora da Beira-Rio.



O direito à moradia é fundamental para a vida de qualquer ser humano. No entanto, no Brasil, ele é negado para dezenas de milhões de pessoas. Enquanto isso, bancos e grandes empresas multiplicam seus lucros a cada ano, com a sangria dos cofres públicos e, consequentemente, dos corpos da imensa maioria dos brasileiros.

Em Teresina, a prefeitura vem encabeçando uma sequência feroz de despejos. São famílias, comunidades inteiras, uma após a outra, lançadas no olho da rua sem qualquer amparo. Como se não fosse justamente do Estado, sustentado pelos impostos pagos pela classe trabalhadora – incluindo os sem teto despejados –, a responsabilidade constitucional de assegurar os direitos básicos a todo ser humano, inclusive o de moradia (Artigo 6° da Constituição Federal). O que fazem é desumano, é cruel, é covardia, é criminoso!



Exigimos do Governo Estadual e Federal o devido e urgente posicionamento político, uma vez que, segundo a mesma Constituição, assegurar o direito à moradia também é de competência dessas duas esferas. Governantes, se lavarem suas mãos na pia da omissão, serão eternamente responsabilizados por qualquer mal infringido contra a integridade física ou mental de qualquer uma dessas pessoas – mulheres, homens, crianças, idosos.

Também lembramos aos poderes constituídos que a comunidade não quer guerra. As famílias querem moradia, querem sossego, dignidade, querem ser tratadas como gente. Gente que são, gente de direito! Nem lixo deve ser jogado nas ruas, quanto mais um ser humano. Por esse motivo, mobilizaremos toda a união do povo, todo o apoio possível da gente que é gente e resistiremos junto com a comunidade até as últimas consequências. Beira-Rio é OPA, OPA é Beira-Rio!



sexta-feira, 2 de junho de 2023

BARRAGEM FRONTEIRAS E O TEATRO DA VIDA





            Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA.

 

Ontem, 01/06, o teatro Rosa Moraes, em Crateús-CE, foi palco de mais uma batalhada na luta das comunidades e da população urbana contra os crimes cometidos na construção da Barragem Fronteiras e pela redefinição de seu projeto.

A referida obra, que ora se ergue contra a vida de milhares de famílias, é acobertada por um falso discurso, uma encenação – como sempre acontece nos grandes projetos capitalistas –, de que vem com a finalidade de prover a população local daquilo que é sua maior carência: água.

Sim, água é vida, mas desde que seu uso tenha a finalidade de promovê-la. O que parece não ser o caso.

Estudos indicam que a Barragem Fronteiras possui dois objetivos principais, não revelados abertamente, e até negados pelas autoridades: atrair grandes empresas do agronegócio e servir de suporte hídrico a usinas mineradoras que já operam e outras que pretendem se instalar na região. Uma delas, de tão importante para o capital, foi citada no último debate televisionado da eleição presidencial passada. Ou seja, as pistas mostram claramente que o que está em curso é um velho e conhecido roteiro: imensa lucratividade para poucos, às custas de veneno e radioatividade, doença e morte para muitos.

Na audiência, as comunidades denunciaram sem meias palavras a intenção velada do projeto e exigiram “água para a vida, para o abastecimento humano, para a produção sustentável, e não para o agronegócio nem para a mineração.”

Com o auditório lotado e diante de representantes de órgãos estatais responsáveis, as famílias primeiramente atingidas expuseram o que vêm sofrendo há anos, antes mesmo da primeira carrada de argamassa ser assentada: “Nossos idosos estão morrendo de depressão. Sem poder reformar, nossas casas estão caindo sobre nossas cabeças. Não temos mais acesso a políticas públicas. Nossa vida é uma só angústia desde que tudo isso começou”. De forma objetiva e sistematizada, apresentaram suas reivindicações com prazo anunciado: “Que se encaminhe a pauta até julho de 2023. Não aguentamos mais esperar!” É como se costuma ouvir: “Se o direito não chegar, a obra vai parar!”

Se, com a pontinha do rabo, o dragão já provoca tanto sofrimento, que dirá quando se revelar por completo e, livre e solto, estiver praticando suas monstruosidades.

            No teatro da vida, a realidade é dolorida, mas cheia de esperança, sobretudo quando a união e luta dos oprimidos entram em cena.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

ARCO-ÍRIS DOS DERROTADOS

 


Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA

 

Torcedor fanático do “Gigante da Colina Histórica”, como costuma chamar o Vasco da Gama, comunista declarado, com seus mais de setenta anos de idade, combatente ao lado de Carlos Marighella na Ação Libertadora Nacional (ALN), perseguido, torturado e exilado, o camarada Aldir me profere palavras quase sussurradas no alpendre de sua casa, em Teresina:

– Como, Aldir? Não entendi.

– Eu sempre perdi.

– Como assim “sempre perdeu”? – indaguei meio confuso. Isso porque percebi que, ao se declarar um derrotado, o camarada transbordava um indisfarçável sentimento de satisfação. Parecia uma questão de honra mal disfarçada, e não parecia ser só dele. Era algo coletivo, com raízes ramificadas entre vivos, mortos e desaparecidos, entre os que ainda estão por nascer. Sim, eu vi alguns músculos do rosto tremerem de emoção, como se doessem de contentamento, tal e qual uma enigmática alegria que transborda de um breu profundo.

– Eu sempre perdi. Em minha vida toda de comunista, eu sempre perdi. Foi sempre assim – e, depois de uma pausa, conclui numa arrematada calma: – Ainda bem que eu sempre perdi.

           Todas as vitórias dos oprimidos e explorados – absolutamente todas! – só são possíveis do ponto de vista militante se houver lealdade à causa, à luta e à sua independência de classe, ainda que esta atitude signifique uma vida inteira de derrotas.

            O passado, o presente e o futuro humanos agradecem, camarada Aldir, por ajudar a manter aceso o arco-íris.

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina

  Thales Emmanuel, militante da OPA          O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará...