O
segundo turno das eleições presidenciais está aí. Apesar
das inúmeras notícias falsas que circulam, não é tão difícil entender o que
está em disputa. Vejamos.
Imaginemos que estamos em plena escravidão. De
um lado, a casa-grande, onde mora o escravizador, proprietário da terra. Do
outro, a senzala, onde vivem as trabalhadoras e os trabalhadores escravizados.
Entre uma e outra está o feitor, encarregado de administrar a fazenda e fazer
cumprir as ordens que vêm da casa-grande.
Flávio
Bolsonaro é do tipo de feitor bajulador, que acredita que uns nasceram para ser
escravos, enquanto outros vieram ao mundo para mandar e desfrutar da boa vida.
Ele fala como se essa divisão fosse vontade de Deus. Quando declara: “Ou menos
direitos e mais empregos, ou mais empregos e menos direitos”, está dizendo, em
outras palavras: “Não mexam com a casa-grande. Ou aceitam numa boa a condição
de escravo, ou terão problemas.” Assim era o nazismo na Alemanha: tudo para os ricos
e, para a classe trabalhadora, ameaça, miséria, exaustão física e mental,
prisão, obediência, morte.
É por
isso que o filho mais velho de Jair Bolsonaro, tal e qual o pai, já se
pronunciou inúmeras vezes como admirador de torturadores e milicianos, que
representam, nos dias de hoje e de um passado recente, o açoite dos tempos da
escravidão, a punição aplicada contra trabalhadores que desobedeciam ao
fazendeiro.
Com
essa explicação, fica fácil entender por que, quando os governos dos Estados
Unidos e de Israel invadem países e assassinam dezenas de milhares de crianças
e mulheres, Flávio Bolsonaro aplaude de pé, como se o sofrimento não existisse,
como se fosse uma guerra justa, como se fossem apenas números em um jogo de
tabuleiro.
Ele
está sempre do lado dos mais poderosos. Numa eventual invasão das forças
armadas dos Estados Unidos contra o Brasil, os Bolsonaros já deixaram evidente
que estarão ao lado de Trump. Logicamente inventando inúmeras mentiras para que
a população creia que a invasão fará bem ao país.
Já
Lula é alguém que veio da senzala e hoje ocupa essa função intermediária diante
da casagrande. Tenta convencer os proprietários escravizadores de que, com uma
senzala feliz, com melhorias em suas condições de existência, todos podem
ganhar. Certa vez declarou numa entrevista que “foi preciso um torneiro
mecânico com tendências socialistas ser eleito para fazer o capitalismo
funcionar”, referindo-se aos seus primeiros anos de governo.
Os
escravizadores olham Lula com desconfiança, mas sabem que ele pode ser útil
para conter eventuais revoltas da senzala. Isso porque estão certos de que a
intenção de Lula não é pôr fim à escravidão. Lula se apresenta como alguém que
pode amenizar os efeitos da desigualdade ao se projetar como ponte entre
trabalhadores e patrões.
A
ideia pode até ser boa, mas, na prática, ainda que haja conquistas ou perdas
comparativamente menores por parte da senzala, ao final o escravizador acaba
sempre levando a melhor e aumentando a carga de exploração. Até o dia em que a
crise sinaliza no horizonte e o representante do diálogo é descartado,
substituído pelo feitor do chicote, enquanto os direitos conquistados são
desfeitos como nuvens ao vento.
Agora
chegou sua vez de refletir sobre o que foi dito. Compare com a realidade. Vá a
fundo, questione, procure até encontrar. Afinal, quem coloca a verdade para
dentro de você é você mesmo.
De
nossa parte, o que percebemos é que, se você é um ser humano, uma pessoa
sensível à dor humana, se pensa como um ser humano, se investiga e vai atrás
das respostas, dificilmente Flávio Bolsonaro será opção.
E se você é trabalhador ou trabalhadora, se sonha e deseja ardentemente o fim da escravidão, sabe que seu voto neste momento tem importância. Se for votar em Lula, vote, mas não pare por aí. É fundamental seguir se organizando, unindo-se aos irmãos e irmãs de senzala e agir, lutar incansavelmente, independentemente de quem governe, preparando o dia de quebrarmos definitivamente as correntes.
Coordenação da Pastoral da Moradia e Favela da Arquidiocese de Fortaleza
Fortaleza, 07 de outubro de 2026
