domingo, 24 de maio de 2026

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina



 

Thales Emmanuel, militante da OPA

 

 

    O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará foi concluído esses dias com quase 99% (22648 votos) das pessoas consultadas decidindo pela revogação imediata da lei.

    Enquanto as bases populares aprofundam seu entendimento e sentimento de revolta ante a gravidade da situação, no parlamento e no executivo, o silêncio cúmplice segue como regra.

    Os microfones da Assembleia Legislativa e os do Palácio da Abolição parecem proibidos de tocar na pauta “Vontade do povo cearense de não ser envenenado”. Se desacreditam no Plebiscito Popular feito pelo movimento Revoga Já!, por que não realizam eles mesmos uma consulta oficial à população? Talvez falte o estímulo de drones cuspindo glifosato em suas cabeças.

    O último trabalho com as urnas do Revoga Já! foi nas comunidades da Chapada do Apodi, no Vale do Jaguaribe; não a única, mas a região mais atingida pela chuva de veneno. Lugar onde, em uma só comunidade rural, existem 90 crianças laudadas com autismo. Sem contar as que se encontram em processo de análise e as marginalizadas do atendimento médico.

    Para quem não sabe, pesquisas indicam que o aparecimento crescente de pessoas tipificadas com o espectro autista está diretamente relacionado à contaminação por agrotóxicos.

    No colégio Pia Marta, localizado na comunidade Cabeça Preta, crianças passam horas inalando veneno lançados por drones a 40 passos de distância das salas de aula.


Meu filho entra em casa com falta de ar, as vezes vomitando, reclamando de tontura, de ardência nos olhos e na pele. Não sei se a dor de cabeça que sinto é por conta do mau cheiro do veneno no ar ou por eu passar o dia preocupada com meu menino na escola. Estão matando nossas crianças!, denuncia uma mãe.


    Alguns falam em resolver o problema transferindo a escola para um local mais distante. No entanto, além das pessoas que moram nas redondezas, estudos provam que o agrotóxico jogado do alto é capaz de se espalhar por dezenas de quilômetros de seu ponto de lançamento.

    Nas entrelinhas, numa região tomada pelos drones do agronegócio, afastar a escola para longe implica aceitar que o problema será resolvido com a expulsão progressiva da população trabalhadora nativa. Como é de regra no capitalismo, inverte-se os papéis: condena-se a vítima e premia-se o criminoso com a disponibilidade de mais terras. A expansão do agronegócio significa a ampliação do raio de aplicação e deriva da chuva de veneno, com novas populações sendo penalizadas.

    Agora imaginemos se fosse o contrário. Se um assassino frio e calculista resolvesse utilizar um veículo aéreo não tripulado para envenenar os bairros onde estudam os filhos dos empresários do agronegócio, o que aconteceria? Fechariam a escola? A transfeririam de lugar? Ou seria o assassino rapidamente liquidado?

    O clima de terror contra as comunidades da Chapada do Apodi, incluindo o assassinato de liderança, fez com que as pessoas preferissem não se identificar. Opinaram no Plebiscito sem colocar seus nomes na lista de participação. Elas não querem a presença dos drones da morte; elas querem ficar, a Chapada é seu lar, mas como a democracia em que vivemos é do tipo que acoberta e promove os crimes dos ricos capitalistas, o povo trabalhador protesta da maneira que pode, encontrando formas que não lhe antecipe a morte. E isso com a plena consciência de que seus corpos não suportarão por muito tempo o agrotóxico introduzido.

    Além do governador, 22 deputados se colocaram favoráveis à chuva de veneno. Um se absteve e 9 votaram contra. Destes últimos, a exceção de um, todos praticamente não tocaram mais no assunto depois de concluída a sessão plenária em que a lei fora votada.

    Um ou outro tenta justificar o silêncio colocando a culpa numa resignada “correlação de forças”. Como se dissessem: “Como sardinha, votei contra, mas a correlação de forças exige que continuemos nadando em direção à boca do tubarão”.

    No final do ano passado, uma comissão do Revoga Já! esteve na Assembleia Legislativa. Passou de gabinete em gabinete, e foi muito bem recepcionada pelos assessores dos 9 parlamentares. Porém, o posicionamento público solicitado pela comissão só veio da parte do deputado Renato Roseno, expoente inquestionável da luta institucional contra o agrotóxico.

    O trabalho de base do Revoga Já! nos ensina que a luta contra os agrotóxicos é algo bem mais profundo que o esforço por se revogar uma lei que atenta descaradamente contra a vida.

    Mexer com a indústria do veneno e com o latifúndio que lhe sustenta o lucro é bulir com uma estrutura de poder, com a relação que se faz siamesa entre dominação econômica e dominação política. O povo que elege é o mesmo que é silenciado por decisão de seus “representantes”. Decisões tomadas para atender interesses de grandes empresários, não eleitos, mas que mandam e subjugam toda sociedade.

    Essa realidade nos abre a vista para reconhecermos as incontáveis ditaduras dentro daquilo que nos acostumamos chamar de “democracia”.

    Florestan Fernandes nos alertava sobre uma enganosa “crença nas práticas democráticas das sociedades capitalistas, como solução de todos os problemas”.

    Deve ser por esse motivo que, entre o silêncio e o silenciamento, de La Paz à Chapada, passando por Manaus e Belém do Pará, já se sente o crescente tremor da indignação sacolejar as estruturas do sistema opressor. “REVOGA OU REVOLTA!”, gritam, sussurram ou, simplesmente, vivem.

    Em alguns lugares, os opressores se adiantam e desfazem as malditas leis por eles criadas. Recuam, antes que seja tarde demais. Antes que os oprimidos descubram que por suas mãos se revogam tanto leis quanto sistemas.

 

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina

  Thales Emmanuel, militante da OPA          O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará...