Por Thales Emmanuel, militante da OPA
Intertexto
Primeiro
levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era
negro
Em
seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com
isso
Eu também não era operário
Depois
prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque
eu não sou miserável
Depois
agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também
não me importei
Agora
estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me
importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Bertolt Brecht
Quando a luta da classe trabalhadora avança, o sindicato combativo avança com ela. Antes que isso aconteça, porém, o sindicato se depara com duas possibilidades políticas: pode estimular e impulsionar esse avanço ou pode fechar-se em si mesmo, limitando sua ação aos interesses imediatos de sua própria categoria e, assim, seguir a reboque do movimento da classe.
Os vínculos com a classe trabalhadora são tanto mais fortes quanto mais solidários forem os laços que estabelecemos entre suas diferentes categorias e setores. O fato de termos no sistema capitalista um inimigo comum nos coloca diante de uma dialética na qual o “sair de si” é condição para o fortalecimento da parte de dentro. Em outras palavras: quando uma categoria apoia a luta de outra, ela não está apenas praticando solidariedade; está fortalecendo a luta de toda a classe contra aquilo que a oprime.
É como na história de Os Três Porquinhos: se o porquinho da casa de alvenaria se solidariza com a resistência do irmão da palhoça, o lobo mal, cansado de tentativas frustradas, se enfraquece. Ao fortalecer a resistência do outro, o porquinho aumenta a segurança da sua própria casa. As chances do predador avançar diminuem. O bem que fazemos ao outro, portanto, também é um bem que fazemos a nós mesmos.
Relações meramente utilitárias são incapazes de elevar o patamar da unidade da classe. É por isso que o “da lá-toma cá” não pode ser nem central nem critério que define nossa solidariedade. É evidente que um sindicato pode possuir maior proximidade ou afinidade com determinados setores do que com outros. O princípio do “sair de si”, no entanto, deve ser a solidariedade de classe.
As relações entre os diferentes setores da classe trabalhadora devem ser tão amplas quanto possível. Ao mesmo tempo, é necessário consolidar vínculos mais estreitos e permanentes com organizações e movimentos que demonstrem, na prática, compromisso com a participação popular ativa, a organização de base e a independência de classe. Para tal, faz-se necessário vislumbrar o futuro a partir do agora, faz-se imprescindível intencionalidade e planejamento. Sem um plano, o porquinho de boa vontade e solidário corre maiores riscos de ir, junto com seu irmão, para a panela do predador.
Quando, movidas pelo princípio da solidariedade de classe, diferentes categorias se encontram, preconceitos podem ser superados, o desconhecimento dá lugar à compreensão e o temor pode transformar-se em admiração. A unidade deixa de ser apenas uma palavra e começa a ser construída na prática, soldada pela experiência compartilhada e pela chama de uma nova consciência em formação.
É justamente nesse processo de convivência, contato e luta comum que se desenvolve a consciência de classe. Não por acaso, o Manifesto do Partido Comunista encerra-se com a conhecida convocação: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!” A unidade não nasce da distância, mas do encontro; não se constrói apenas pelo discurso, mas pela experiência concreta de estar e lutar lado a lado.
A solidariedade de classe, portanto, precisa ser mais do que uma resposta pontual diante das dificuldades de uma categoria. Ela deve se tornar uma prática permanente de construção da unidade, capaz de aproximar diferentes setores da classe trabalhadora, criar laços de confiança e ampliar nossa capacidade coletiva de enfrentar os males impostos pelo capital. É no exercício concreto da solidariedade que deixamos de ser categorias isoladas e passamos a nos reconhecer como parte de uma mesma classe e de uma mesma luta.









