domingo, 24 de maio de 2026

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina



 

Thales Emmanuel, militante da OPA

 

 

    O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará foi concluído esses dias com quase 99% (22648 votos) das pessoas consultadas decidindo pela revogação imediata da lei.

    Enquanto as bases populares aprofundam seu entendimento e sentimento de revolta ante a gravidade da situação, no parlamento e no executivo, o silêncio cúmplice segue como regra.

    Os microfones da Assembleia Legislativa e os do Palácio da Abolição parecem proibidos de tocar na pauta “Vontade do povo cearense de não ser envenenado”. Se desacreditam no Plebiscito Popular feito pelo movimento Revoga Já!, por que não realizam eles mesmos uma consulta oficial à população? Talvez falte o estímulo de drones cuspindo glifosato em suas cabeças.

    O último trabalho com as urnas do Revoga Já! foi nas comunidades da Chapada do Apodi, no Vale do Jaguaribe; não a única, mas a região mais atingida pela chuva de veneno. Lugar onde, em uma só comunidade rural, existem 90 crianças laudadas com autismo. Sem contar as que se encontram em processo de análise e as marginalizadas do atendimento médico.

    Para quem não sabe, pesquisas indicam que o aparecimento crescente de pessoas tipificadas com o espectro autista está diretamente relacionado à contaminação por agrotóxicos.

    No colégio Pia Marta, localizado na comunidade Cabeça Preta, crianças passam horas inalando veneno lançados por drones a 40 passos de distância das salas de aula.


Meu filho entra em casa com falta de ar, as vezes vomitando, reclamando de tontura, de ardência nos olhos e na pele. Não sei se a dor de cabeça que sinto é por conta do mau cheiro do veneno no ar ou por eu passar o dia preocupada com meu menino na escola. Estão matando nossas crianças!, denuncia uma mãe.


    Alguns falam em resolver o problema transferindo a escola para um local mais distante. No entanto, além das pessoas que moram nas redondezas, estudos provam que o agrotóxico jogado do alto é capaz de se espalhar por dezenas de quilômetros de seu ponto de lançamento.

    Nas entrelinhas, numa região tomada pelos drones do agronegócio, afastar a escola para longe implica aceitar que o problema será resolvido com a expulsão progressiva da população trabalhadora nativa. Como é de regra no capitalismo, inverte-se os papéis: condena-se a vítima e premia-se o criminoso com a disponibilidade de mais terras. A expansão do agronegócio significa a ampliação do raio de aplicação e deriva da chuva de veneno, com novas populações sendo penalizadas.

    Agora imaginemos se fosse o contrário. Se um assassino frio e calculista resolvesse utilizar um veículo aéreo não tripulado para envenenar os bairros onde estudam os filhos dos empresários do agronegócio, o que aconteceria? Fechariam a escola? A transfeririam de lugar? Ou seria o assassino rapidamente liquidado?

    O clima de terror contra as comunidades da Chapada do Apodi, incluindo o assassinato de liderança, fez com que as pessoas preferissem não se identificar. Opinaram no Plebiscito sem colocar seus nomes na lista de participação. Elas não querem a presença dos drones da morte; elas querem ficar, a Chapada é seu lar, mas como a democracia em que vivemos é do tipo que acoberta e promove os crimes dos ricos capitalistas, o povo trabalhador protesta da maneira que pode, encontrando formas que não lhe antecipe a morte. E isso com a plena consciência de que seus corpos não suportarão por muito tempo o agrotóxico introduzido.

    Além do governador, 22 deputados se colocaram favoráveis à chuva de veneno. Um se absteve e 9 votaram contra. Destes últimos, a exceção de um, todos praticamente não tocaram mais no assunto depois de concluída a sessão plenária em que a lei fora votada.

    Um ou outro tenta justificar o silêncio colocando a culpa numa resignada “correlação de forças”. Como se dissessem: “Como sardinha, votei contra, mas a correlação de forças exige que continuemos nadando em direção à boca do tubarão”.

    No final do ano passado, uma comissão do Revoga Já! esteve na Assembleia Legislativa. Passou de gabinete em gabinete, e foi muito bem recepcionada pelos assessores dos 9 parlamentares. Porém, o posicionamento público solicitado pela comissão só veio da parte do deputado Renato Roseno, expoente inquestionável da luta institucional contra o agrotóxico.

    O trabalho de base do Revoga Já! nos ensina que a luta contra os agrotóxicos é algo bem mais profundo que o esforço por se revogar uma lei que atenta descaradamente contra a vida.

    Mexer com a indústria do veneno e com o latifúndio que lhe sustenta o lucro é bulir com uma estrutura de poder, com a relação que se faz siamesa entre dominação econômica e dominação política. O povo que elege é o mesmo que é silenciado por decisão de seus “representantes”. Decisões tomadas para atender interesses de grandes empresários, não eleitos, mas que mandam e subjugam toda sociedade.

    Essa realidade nos abre a vista para reconhecermos as incontáveis ditaduras dentro daquilo que nos acostumamos chamar de “democracia”.

    Florestan Fernandes nos alertava sobre uma enganosa “crença nas práticas democráticas das sociedades capitalistas, como solução de todos os problemas”.

    Deve ser por esse motivo que, entre o silêncio e o silenciamento, de La Paz à Chapada, passando por Manaus e Belém do Pará, já se sente o crescente tremor da indignação sacolejar as estruturas do sistema opressor. “REVOGA OU REVOLTA!”, gritam, sussurram ou, simplesmente, vivem.

    Em alguns lugares, os opressores se adiantam e desfazem as malditas leis por eles criadas. Recuam, antes que seja tarde demais. Antes que os oprimidos descubram que por suas mãos se revogam tanto leis quanto sistemas.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

QUATRO PILARES DA PASTORAL DE MORADIA E FAVELA*

 


Nenhuma família sem casa

Nenhum camponês sem terra

Nenhum trabalhador sem direitos”

Papa Francisco


    “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10:10). Esta frase bíblica se refere ao grande propósito da vinda e vida de Jesus aqui na Terra.

    Sendo assim, perguntamos: Como anda a vida das pessoas nos tempos de hoje? Ora, sabemos que para a imensa maioria da população a coisa não tá nada fácil. Falta uma “Bíblia” de direitos antes que possamos afirmar que alcançamos as condições mínimas de dignidade.

    Mas por que será que isso acontece? Os homens do poder não têm coração? Ou o motivo é que não há dinheiro para os investimentos necessários?

Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida (auditoriacidada.org.br), o governo federal movimentou, em 2025, a quantia de 5,054 trilhões de reais. Pois então, que fim levou o dinheiro arrecadado com os impostos que pagamos? Quase a metade, 2,135 trilhões, foi entregue diretamente a bancos e grandes empresas financeiras através da chamada Dívida Pública. Apenas 0,0084% foi destinado para habitação!

Em 2021, no governo anterior, a situação chegou a ser ainda pior, com o corte de mais de 98% dos já quase nada de recursos previstos.

Antes que alguém diga “É por conta da crise”, peguemos 2010, um dos anos de maior acesso popular a políticas públicas da história do Brasil.

Naquele tempo, os bairros nobres recebiam em torno de 5100% (51 vezes!) mais investimento governamental do que os bairros populares. Pesquisas mostram que, enquanto a expectativa de vida em favelas era de 57-58 anos, nos bairros ricos se vivia em média mais de 8 décadas.

Por que governos, sejam eles de esquerda ou de direita, não questionam a Dívida, mesmo sabendo que ela já foi paga inúmeras vezes, como atestam estudos técnicos independentes? Pelo visto, não elegemos quem de fato manda na política.

A pergunta correta, então, não é se os homens do poder têm ou não coração, mas onde os põem, em função de que projeto de sociedade eles batem.

O que percebemos é que não falta orçamento público para resolver os problemas do povo. O que falta é devolver ao povo o que é do povo, e para que isso aconteça é preciso enfrentar os interesses do megaempresariado que lhe retira a merecida dignidade anunciada com a Boa Nova do Evangelho.

Nosso objetivo aqui não é entrar muito no tema, mas mostrar que a miséria não se alastra por descaso ou má administração. A ausência de moradia adequada para dezenas de milhões de famílias existe para que se cumpra um plano. Plano este baseado num princípio de funcionamento do próprio tipo de sociedade em que vivemos, o de fazer “ricos cada vez mais ricos, às custas de pobres cada vez mais pobres”, como bem disse o então Papa João Paulo II em 1979, por ocasião da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada na cidade de Puebla de los Angeles, no México.

Um dos papéis da Pastoral da Moradia e Favela é justamente ajudar nessa reflexão. Inspirada nos ensinamentos de Jesus, “com todo coração e com todo o ENTENDIMENTO” (Marcos 12:30), procurar com o povo as causas de seus problemas, para, assim, construirmos juntos as soluções.

Não é função da Pastoral fazer “pelo” povo. Mas apoiar a organização, animar, uma vez que, quem sente diretamente as dores da desigualdade social programada, precisa sentir também a necessidade de agir. Não se trata de dizer “vai!”, e ficar olhando de longe. É irmos juntos.

A História nos ensina que as transformações que tanto precisamos só virão com nossa união e luta. Junto com a fé e com a busca por compreender as causas dos problemas, temos então quatro dos pilares que devem sustentar nossa caminhada (Fé, Formação, União e Luta).

Iniciemos a trajetória da Pastoral da Moradia e Favela de Fortaleza cientes de que nosso coração estará onde se acharem nossas prioridades.

    Amém! Axé! Auerê! Aleluia!



Thales Emmanuel, militante da OPA e integrante da articulação da Pastoral de Moradia e Favela de Fortaleza.



* Material estudado no seminário de criação da Pastoral da Moradia e Favela de Fortaleza, em março de 2026.

segunda-feira, 16 de março de 2026

A POESIA SOLIDARIEDADE DA POETA COLIBRI


 

Thales Emmanuel, militante da OPA.


    Desde muito cedo a gente escuta dizer que o ser humano é egoísta e competitivo por natureza, que não tem jeito de mudar, que as guerras são decorrentes daí, que ir contra essa “essência” é remar, em vão, contra a maré. E, assim, somos preparados a aceitar as mazelas do mundo e a predeterminação catastrófica do futuro.

     Será que é verdade mesmo, ou essa percepção não passa de fumaça ideológica para fazer-nos cruzar os braços e nada questionarmos, por nada lutarmos?

   O que encontramos na Ocupação/Retomada Poeta Colibri, no Ceará, ajuda-nos a refletir.

    Já nas reuniões de preparação para entrar na terra, no latifúndio, o princípio das pessoas ali reunidas era: “Aqui ninguém é patrão de ninguém. Toda opinião importa e possui a mesma relevância. Ao final, caminharemos, todos e todas, segundo uma definição comum.”

    A coletivização, a partilha do poder e o zelo para que sempre aconteça assim, aos poucos vira raiz, que se aprofunda a cada assembleia. Raiz que vai formando seres humanos em outra cultura, não só distinta, mas oposta ao individualismo e a competição reinantes, bases do controle capitalista sobre os oprimidos.

    Com isso, o ser humano vai sendo recolocado no centro, e não mais suas posses. As distintas habilidades ficam a serviço das necessidades da vida de cada pessoa e de todas ao mesmo tempo.

    Já dentro da terra, como as reuniões continuam segundo os mesmos princípios, a utilização dos bens da natureza segue caminho semelhante.

   Muito embora parte do terreno seja dividida em “quintais produtivos”, ou “unidades familiares”, toda terra retomada fica sob a coordenação coletiva de toda a comunidade, sendo as assembleias regulares o espaço onde problemas são debatidos e as soluções construídas.

    Os quintais são de uso particular da família, mas é bastante comum, mesmo neles, o mutirão, seja por opção direta (“o trabalho coletivo é mais prazeroso e gratificante”) ou em auxílio a alguma família que passa por dificuldades. Doenças, problemas financeiros, deficiências físicas, são alguns dos motivos geralmente partilhados nas assembleias junto ao pedido de ajuda. Nada pago. Tudo voluntário.

  Muito embora reservado ao uso particular, os quintais não são propriedades privadas de ninguém. Estão ali para serem plantados, cultivados, uma posse a ser zelada pela família. A terra não é mercadoria. Não se vende nem se compra.

    A palavra “economia” vem do grego e significa “gestão do lar”. Se o lar é para todas as pessoas, nada mais lógico que todas elas participem ativamente de sua gestão. Parece óbvio, e é!, mas esta não é a regra imposta pelas relações sociais dominantes. Daí o estranhamento, ou maravilhamento com experiências do tipo.

    O exercício coletivo da gestão do lar, a democracia participativa da pequena casa comum da Poeta Colibri, potencializa a solidariedade que surge espontânea no seio dos oprimidos, além de estimular as consciências para novas ações afins.

    No dia em que viaturas com policiais comandados por um segurança do latifundiário realizaram uma blitz ilegal em frente à comunidade e apreenderam a moto de um trabalhador, as famílias responderam com uma “vaquinha” e compraram outra motocicleta para seu companheiro.

    Quando pessoas apresentam problemas mentais, quase sempre sequelas de desumanidades suportadas, a comunidade as acolhe e cria maneiras próprias de participação, para que ninguém fique de fora.

   São tantas as práticas de solidariedade na Poeta Colibri, que não cabem num texto tão curto como esse. Histórias escritas com as próprias vidas.

    A interação militante é importante para revigorar o que nasce espontaneamente, e fundamental no processo de rompimento com os bloqueios ideológicos do egoísmo capitalista implantado no povo. Por isso que nas reuniões se fala tanto em “Não somos seres acabados. Estamos em construção.”

   Concluo esse escrito com uma confissão. Ao ultrapassar a metade das linhas, dei-me conta que nada de novo havia. Ora, em todo lugar que ando essa pulsante solidariedade está presente! Aí me bateu um desânimo. Que graça teria para alguém ler algo sobre fatos tão corriqueiros?

    Antes que o texto perdesse totalmente a razão de ser, no entanto, um estalo revirou meu pensamento: É por isso mesmo!!! É justamente pela não exclusividade, é exatamente por existir em vastos locais, que o espírito de solidariedade se enche de absoluto sentido!

    É por transbordar, por não se deter ante nenhuma barreira, que, de átomo em átomo, o espírito se faz corpo inteiro; que, de verso em verso, a costura militante da liga entre as solidariedades que ligam os oprimidos escreve com letras vivificantes o belíssimo e incluso poema de amor de nome Revolução.


 

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

O QUE É QUE A LUTA PELA TERRA TEM A VER COM O VENENO NOSSO DE CADA DIA

Retomada Poeta Colibri, no Ceará, enfrenta atualmente as forças do latifundiário Zezinho Albuquerque, deputado estadual e secretário de governo.

 

Thales Emmanuel, militante da OPA.


Segundo o IBGE, 1% de proprietários controla metade das terras agricultáveis no Brasil. Os 99% restantes que se virem com a outra metade.

Se você teme o câncer, se se preocupa com a chegada da demência, se a depressão de algum parente lhe desassossega a vida, saiba que estas são doenças diretamente ligadas à estrutura agrária do seu país!

O agronegócio no Brasil, o modelo empresarial dominante na agricultura, parte da junção do latifúndio com a indústria capitalista, aquela que produz os agrotóxicos. Praticamente tudo é envenenado por conta deste pacto assassino, inclusive o que sua família come.

Para obterem o controle total das terras, os grandes proprietários expulsaram quem nela habitava. A luta indígena, quilombola, camponesa, a luta do povo trabalhador pela terra, sua resistência, é, pois, o contraponto primeiro, a mais elementar forma de enfrentamento quando pensamos em nos curar dos agrotóxicos e seus malefícios.

O uso de agrotóxicos no Brasil cresceu 700% em trinta anos, assim como cresceu a área controlada pelo modelo do agronegócio, assim como cresceram os novos casos de câncer, quase um milhão a cada três anos. Temos o pior índice de pessoas que sofrem com depressão e ansiedade da América Latina. O glifosato, herbicida mais consumido no país, tem sido associado a danos cerebrais e ao aumento do risco de demência. Não é mera coincidência!

A família camponesa - assentada da Reforma Agrária, pequena proprietária ou posseira - tem uma relação totalmente diferente com a terra. Ela mora lá, seus laços de afetividade são construídos lá. Se usa veneno, será a primeira a ser atingida. E quem gosta, em seu são juízo, de ser envenenado?

Isso quer dizer que o camponês não utiliza agrotóxico em sua produção? Seria absurdo acreditar que a imposição de todo um sistema não implicaria no uso dos químicos por parte de parcela dos trabalhadores. Obviamente, nada comparado à contaminação provocada pelo modelo empresarial. Vem dos movimentos populares, inclusive, a elaboração de alternativas saudáveis concretas para toda a sociedade, como a agroecologia.

Para concluir, se você quer manter distância do câncer, da depressão e da demência, se não curte agrotóxico em sua mesa, mas se invoca contrário ou contrária às ocupações ou retomadas de terra feitas por organizações populares, das duas, uma: ou é por desconhecimento ou por hipocrisia. E por desconhecimento agora não é mais.


 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

LATIFÚNDIO AMEAÇA E FAMÍLIAS TRABALHADORAS FECHAM ESTRADA EM PROTESTO




 

Equipe de Comunicação da OPA.


As famílias da Comunidade Poeta Colibri, no município de Morrinhos, Ceará, fecham, desde os primeiros minutos da manhã de ontem, 21/01, uma estrada que liga o distrito de Sítio Alegre ao município de Santana do Acaraú.


Estamos aqui para denunciar mais uma ordem de despejo de um doutor da lei contra a gente. Já convidamos juízes e a Comissão de Resolução de Conflitos Fundiários para visitar a comunidade. Vê essa terra: ela não produzia nada, estava abandonada por muitos, muitos anos. Comprove com os próprios olhos! Agora, desde que entramos, estamos trabalhando nela, produzindo alimentos para nós e para toda região. Aprendemos que fazenda grande abandonada tem que ser entregue para quem quer trabalhar nela. Tá na Constituição Federal! Zezinho Albuquerque não pode ser maior que a lei. Não pode! Tão tentando fazer com a gente o que estão fazendo com a Venezuela: invadir, despejar para roubar nossa riqueza! A terra é nossa mãe, nosso sustento, nossa maior riqueza! Por isso gritamos assim: Fora Trump da Venezuela! Fora Zezinho Albuquerque da Poeta Colibri”, declarou Maria Cleide, jovem moradora da comunidade, durante o protesto.

Quando as Forças Armadas dos Estados Unidos invadiram a Venezuela e, de olho em suas riquezas, sequestraram o presidente e a primeira-dama, muitos pensaram: “Esse Trump se acha o dono do mundo!”. No interior do Ceará, o deputado e secretário de governo, Zezinho Albuquerque, manobra mais uma vez para despejar as famílias da Comunidade Poeta Colibri. De igual maneira nos perguntamos: “Estará ele acima da lei?”

Trump passou por cima do direito internacional. Já no processo da Poeta Colibri, um dos juízes delegou descaradamente ao advogado do latifundiário, em audiência com participação dos trabalhadores!, o poder de suspender ou manter o despejo. Em outro episódio, um dos desembargadores que estiveram no caso afirmou que o despejo precisaria acontecer com rapidez. O motivo? “Venho recebendo pressão do proprietário”. Terá a sociedade dos “ricos cada vez mais ricos, às custas do povo, cada vez mais empobrecido” abandonado a necessidade das aparências?

O povo venezuelano quer sua soberania assegurada. Luta contra o invasor e pelo direito de decidir seu destino. As famílias da Poeta Colibri almejam sossego para trabalhar e viver com a dignidade merecida na terra retomada. Desde o começo denunciam várias violências vindas do latifúndio, como uma blitz ilegal na comunidade, comandada por seu segurança particular e feita com a presença de inúmeras viaturas da Polícia Militar; e o fogo criminoso que se alastrou na calada da noite contra bandeiras e a casa de um morador, destruindo-a parcialmente. Até boletim de ocorrência foi feito, mas a lâmina da Justiça, quando se move, é sempre na direção da comunidade. Por que será?

A última ordem de despejo, que permanece em aberto até o presente momento, foi emitida em dezembro de 2025 pelo juiz Fábio Medeiros Falcão de Andrade, da Comarca de Santana do Acaraú. Desde então, a tensão na comunidade é permanente.

Por que o juiz não se ordena fazer uma visita à comunidade? Por que a Comissão de Resolução de Conflitos Fundiários não aparece? Se um lado diz uma coisa, e o outro, outra, tem que vir conferir no local quem tá falando a verdade, não é, não? Quem vai ter a coragem de emitir a liminar de comprovação da verdade? É isso que o povo está cobrando, nem mais nem menos”, avaliou Thales Emmanuel, da coordenação da Organização Popular (OPA).

Não existe prazo estipulado para o destrancamento da estrada. O que as famílias trabalhadoras querem e precisam é de solução.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A LEI DE VANDERLEI

 


Por Thales Emmanuel, militante da OPA


     Conheci-o numa manifestação de rua contra os agrotóxicos, na região de Limoeiro do Norte, Ceará. Estava vermelho, e não era do sol. Fora envenenado na e pela empresa do agronegócio em que trabalhava. Numa análise laboratorial, descobriu alterações não naturais em seu código genético. Segundo a pesquisadora, aquilo indicava que logo em breve Vanderlei adoeceria de câncer.

    Aquele ser humano, trabalhador rural, proibido do acesso livre à terra, jogado na fila do desemprego e, assim, forçado a se submeter às mais desumanas condições para sustentar sua família, protestava, reivindicando o direito humano de viver como um humano.

    Seu grito vibrava para além de palavras atiradas contra os agrotóxicos. Ecoava contra as cercas de uma sociedade cujo deus é o dinheiro. Como pode um país desse tamanho, ter tanta gente sem um chão para plantar e morar? Sendo que a existência de uma só pessoa sem terra deveria ser motivo mais que suficiente para tornar todas os demais seres humanos insurgentes contra o sistema que isso provoca! Como pode o trabalho, a mais potente força divina de criação, ser sinônimo de exploração, desigualdade e adoecimento? À sua maneira, Vanderlei gritava mesmo era contra a sacralização da propriedade privada!

    Eram palavras contra políticos eleitos pelo povo, mas que tramam e conspiram contra o próprio povo. Afinal de contas, o veneno tá na lei, é autorizado com a única e cínica finalidade de engordar as gordas contas bancárias de uns poucos endinheirados, traficantes modernos de gente. Os navios negreiros de outrora continuam sua saga genocida em terra firme e, tal como antes, à luz do dia. A morte matada é planejada, conhecem-se as consequências e aplicam-se de maneira dissimulada a velha fórmula das correntes e açoites. Os capitalistas sabem bem para quem destinam as doenças geradas por sua sanha de lucro. “Na mansão, o fato não sensibiliza”. Vanderlei tinha plena consciência que sua vida não se esvaía por acidente. O lucro é um crime premeditado!

     Suas palavras eram mais que palavras. Eram frases de sentimento. Sentimento de carne e osso. Dezenas de milhões de carnes e ossos iguais a ele.

    Na primeira vez, estava de corpo inteiro. Na segunda, arrancaram-lhe um dos pés. No terceiro protesto, faltava-lhe uma perna. Na quarta, onde estava? Vanderlei, amputado membro a membro por conta do câncer, não mais existia. O que restara de seu corpo jazia agora em ensurdecedor silêncio.

     Mas o que os senhores da morte não sabiam era que, esquartejado como um Tiradentes, reduzido a partes de si mesmo, Vanderlei se tornava mais que um Vanderlei. Vanderlei se multiplicava. Propagava-se como semente ao vento, e por inteiro, na carne, nos ossos e nas palavras de quem, com coragem e sentimento, tocava em frente sua teimosa e humana lei de não-desistência.

    Essa é a lei, a lei de Vanderlei! O trabalhador que lutou até o fim da vida contra a morte matada e as leis que acumpliciam assassinos não confessos recebedores de honrarias sádicas.

    Vanderlei, a lei irrevogável, a lei que não morre jamais.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

MILAGRES NOS ANDES: VIDA ENREDO DA VIDA


 

Por Thales Emmanuel, militante da OPA.



    Esses dias assisti ao filme A Sociedade das Neves, dirigido por J. A. Boyona. Lançado em 2024, ele retrata a história real de um acidente aéreo envolvendo um time amador de rúgbi, de Montevidéu, Uruguai. O avião se chocou contra uma montanha quando atravessava a Cordilheira dos Andes em direção a Santiago do Chile. Era 13 de outubro de 1972.

    Das 45 pessoas a bordo, 12 morreram no momento da colisão. Outros tantos nos dias imediatamente seguintes, decorrentes dos graves ferimentos. O frio extremo também levou algumas vidas. Fazia menos 30°C às noites. Não fosse o calor do abraço, todos teriam partido.

    Dez dias depois da queda, as operações de resgate foram interrompidas. Nunca ninguém sobrevivera nos Andes em tais condições! Nesse mesmo período, acabou a comida e os vivos começaram a se alimentar da carne dos amigos mortos. Quando a dificuldade parecia chegar ao limite máximo, eis que duas avalanches os soterram no pedaço de avião que servia de abrigo. Passaram alguns dias enterrados na neve.

    O avião caiu numa região das mais inóspitas e de difícil acesso; porém, entre uma montanha e outra, havia uma brecha, um paredão menor, que evitou a colisão frontal. Depois, apareceu um longo declive de neve sem rochas afloradas, uma espécie de escorrego natural, em ângulo quase perfeito para pousos sem asas, sem trem de pouso e com aeronave cortada ao meio. Tudo milimetricamente ajustado!

    Há milagres que simplesmente acontecem. Nestes, até o mais elaborado “por quê?” não ultrapassa a casca superficial dos fatos. Isso já é em si mesmo fascinante. Porém, o que mais chamou minha atenção foi como os sobreviventes conduziram a luta coletiva pela vida.

    O capitão do time de rúgbi, Marcelo, deu a primeira ideia: “Vamos guardar os alimentos tudo numa mala só!” E, a partir dali, a propriedade privada dos itens necessários à sobrevivência de todos foi abolida. A comunhão se tornou a base das relações materiais, que se tornou a base das relações pessoais, e vice-versa. Uma nova sociedade nasceu: A Sociedade Comunista da Neve!

    A exceção dos inaptos, todos se viravam para fazer alguma coisa. Retirar os bancos para ampliar o espaço interno, distribuir racionalmente a comida, preparar expedições no território, cuidar dos feridos, derreter o gelo para beber a água, e por aí vai.

    Na Sociedade da Neve não havia patrão nem privilegiados. Alguns se despontavam como líderes, mas seu poder não era maior do que o de ninguém. Todas as habilidades estavam a serviço da coletividade, da vida. A igualdade na Sociedade da Neve não tinha nada a ver com a supressão das diferenças individuais.

    Na Sociedade da Neve não havia morador de rua nem aluguel. Não havia esmola nem esmoléu. Nenhum filantropo rico existia por lá. E com ele se foi também a demagogia. A camaradagem não precisava de estímulos artificiais, posto que se retroalimentava da própria essência da organização social. Com o tempo, nem “obrigado” se dizia, nem favores se devia. Cada amigo era verdadeiramente um irmão. Na Sociedade da Neve não existia dinheiro. “Comprar pra quê, se já me pertence?”

    Agora imagine se não tivessem revolucionado a organização da vida, já pensou como seria? Quanto tempo duraria? Quanta desconfiança teriam uns dos outros? Quanto adoecimento mental evitável inevitariam? Quem seria o pai da indústria farmacêutica a anestesiar as dores existenciais? Onde prenderiam os que, privados de abrigo e de comida, roubariam? Quem policiaria a sociedade? Quem mandaria na polícia? Numa Sociedade Capitalista da Neve, todos se devorariam ainda em vida! Mas espera aí! Realizariam uma revolução antes do fim? Quem a realizaria?

    Após 72 dias enfrentando condições extremas, os 16 sobreviventes foram finalmente salvos. Um dos resgatistas, que precisou ficar no local até amanhecer o dia, teve medo de ser canibalizado e passou a noite em claro, numa barraca distante e separada dos demais. Ele não entendia da educação na Sociedade da Neve. De onde veio, as relações se edificam segundo princípios bem diferentes. Lá, salvar vidas é apenas uma profissão.

    Há milagres que não se explica. Decerto, há outros que, como obra conscientemente humana, são racionalizáveis. Sem estes, nenhuma sobrevivência seria possível, nem ontem nem amanhã, nem hoje; na neve ou em qualquer lugar...

 

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina

  Thales Emmanuel, militante da OPA          O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará...