“Nenhuma família sem casa
Nenhum camponês sem terra
Nenhum trabalhador sem direitos”
Papa Francisco
“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente” (João 10:10). Esta frase bíblica se refere ao grande propósito da vinda e vida de Jesus aqui na Terra.
Sendo assim, perguntamos: Como anda a vida das pessoas nos tempos de hoje? Ora, sabemos que para a imensa maioria da população a coisa não tá nada fácil. Falta uma “Bíblia” de direitos antes que possamos afirmar que alcançamos as condições mínimas de dignidade.
Mas por que será que isso acontece? Os homens do poder não têm coração? Ou o motivo é que não há dinheiro para os investimentos necessários?
Segundo a Auditoria Cidadã da Dívida (auditoriacidada.org.br), o governo federal movimentou, em 2025, a quantia de 5,054 trilhões de reais. Pois então, que fim levou o dinheiro arrecadado com os impostos que pagamos? Quase a metade, 2,135 trilhões, foi entregue diretamente a bancos e grandes empresas financeiras através da chamada Dívida Pública. Apenas 0,0084% foi destinado para habitação!
Em 2021, no governo anterior, a situação chegou a ser ainda pior, com o corte de mais de 98% dos já quase nada de recursos previstos.
Antes que alguém diga “É por conta da crise”, peguemos 2010, um dos anos de maior acesso popular a políticas públicas da história do Brasil.
Naquele tempo, os bairros nobres recebiam em torno de 5100% (51 vezes!) mais investimento governamental do que os bairros populares. Pesquisas mostram que, enquanto a expectativa de vida em favelas era de 57-58 anos, nos bairros ricos se vivia em média mais de 8 décadas.
Por que governos, sejam eles de esquerda ou de direita, não questionam a Dívida, mesmo sabendo que ela já foi paga inúmeras vezes, como atestam estudos técnicos independentes? Pelo visto, não elegemos quem de fato manda na política.
A pergunta correta, então, não é se os homens do poder têm ou não coração, mas onde os põem, em função de que projeto de sociedade eles batem.
O que percebemos é que não falta orçamento público para resolver os problemas do povo. O que falta é devolver ao povo o que é do povo, e para que isso aconteça é preciso enfrentar os interesses do megaempresariado que lhe retira a merecida dignidade anunciada com a Boa Nova do Evangelho.
Nosso objetivo aqui não é entrar muito no tema, mas mostrar que a miséria não se alastra por descaso ou má administração. A ausência de moradia adequada para dezenas de milhões de famílias existe para que se cumpra um plano. Plano este baseado num princípio de funcionamento do próprio tipo de sociedade em que vivemos, o de fazer “ricos cada vez mais ricos, às custas de pobres cada vez mais pobres”, como bem disse o então Papa João Paulo II em 1979, por ocasião da III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada na cidade de Puebla de los Angeles, no México.
Um dos papéis da Pastoral da Moradia e Favela é justamente ajudar nessa reflexão. Inspirada nos ensinamentos de Jesus, “com todo coração e com todo o ENTENDIMENTO” (Marcos 12:30), procurar com o povo as causas de seus problemas, para, assim, construirmos juntos as soluções.
Não é função da Pastoral fazer “pelo” povo. Mas apoiar a organização, animar, uma vez que, quem sente diretamente as dores da desigualdade social programada, precisa sentir também a necessidade de agir. Não se trata de dizer “vai!”, e ficar olhando de longe. É irmos juntos.
A História nos ensina que as transformações que tanto precisamos só virão com nossa união e luta. Junto com a fé e com a busca por compreender as causas dos problemas, temos então quatro dos pilares que devem sustentar nossa caminhada (Fé, Formação, União e Luta).
Iniciemos a trajetória da Pastoral da Moradia e Favela de Fortaleza cientes de que nosso coração estará onde se acharem nossas prioridades.
Amém! Axé! Auerê! Aleluia!
Thales Emmanuel, militante da OPA e integrante da articulação da Pastoral de Moradia e Favela de Fortaleza.
* Material estudado no seminário de criação da Pastoral da Moradia e Favela de Fortaleza, em março de 2026.








