segunda-feira, 16 de março de 2026

A POESIA SOLIDARIEDADE DA POETA COLIBRI


 

Thales Emmanuel, militante da OPA.


    Desde muito cedo a gente escuta dizer que o ser humano é egoísta e competitivo por natureza, que não tem jeito de mudar, que as guerras são decorrentes daí, que ir contra essa “essência” é remar, em vão, contra a maré. E, assim, somos preparados a aceitar as mazelas do mundo e a predeterminação catastrófica do futuro.

     Será que é verdade mesmo, ou essa percepção não passa de fumaça ideológica para fazer-nos cruzar os braços e nada questionarmos, por nada lutarmos?

   O que encontramos na Ocupação/Retomada Poeta Colibri, no Ceará, ajuda-nos a refletir.

    Já nas reuniões de preparação para entrar na terra, no latifúndio, o princípio das pessoas ali reunidas era: “Aqui ninguém é patrão de ninguém. Toda opinião importa e possui a mesma relevância. Ao final, caminharemos, todos e todas, segundo uma definição comum.”

    A coletivização, a partilha do poder e o zelo para que sempre aconteça assim, aos poucos vira raiz, que se aprofunda a cada assembleia. Raiz que vai formando seres humanos em outra cultura, não só distinta, mas oposta ao individualismo e a competição reinantes, bases do controle capitalista sobre os oprimidos.

    Com isso, o ser humano vai sendo recolocado no centro, e não mais suas posses. As distintas habilidades ficam a serviço das necessidades da vida de cada pessoa e de todas ao mesmo tempo.

    Já dentro da terra, como as reuniões continuam segundo os mesmos princípios, a utilização dos bens da natureza segue caminho semelhante.

   Muito embora parte do terreno seja dividida em “quintais produtivos”, ou “unidades familiares”, toda terra retomada fica sob a coordenação coletiva de toda a comunidade, sendo as assembleias regulares o espaço onde problemas são debatidos e as soluções construídas.

    Os quintais são de uso particular da família, mas é bastante comum, mesmo neles, o mutirão, seja por opção direta (“o trabalho coletivo é mais prazeroso e gratificante”) ou em auxílio a alguma família que passa por dificuldades. Doenças, problemas financeiros, deficiências físicas, são alguns dos motivos geralmente partilhados nas assembleias junto ao pedido de ajuda. Nada pago. Tudo voluntário.

  Muito embora reservado ao uso particular, os quintais não são propriedades privadas de ninguém. Estão ali para serem plantados, cultivados, uma posse a ser zelada pela família. A terra não é mercadoria. Não se vende nem se compra.

    A palavra “economia” vem do grego e significa “gestão do lar”. Se o lar é para todas as pessoas, nada mais lógico que todas elas participem ativamente de sua gestão. Parece óbvio, e é!, mas esta não é a regra imposta pelas relações sociais dominantes. Daí o estranhamento, ou maravilhamento com experiências do tipo.

    O exercício coletivo da gestão do lar, a democracia participativa da pequena casa comum da Poeta Colibri, potencializa a solidariedade que surge espontânea no seio dos oprimidos, além de estimular as consciências para novas ações afins.

    No dia em que viaturas com policiais comandados por um segurança do latifundiário realizaram uma blitz ilegal em frente à comunidade e apreenderam a moto de um trabalhador, as famílias responderam com uma “vaquinha” e compraram outra motocicleta para seu companheiro.

    Quando pessoas apresentam problemas mentais, quase sempre sequelas de desumanidades suportadas, a comunidade as acolhe e cria maneiras próprias de participação, para que ninguém fique de fora.

   São tantas as práticas de solidariedade na Poeta Colibri, que não cabem num texto tão curto como esse. Histórias escritas com as próprias vidas.

    A interação militante é importante para revigorar o que nasce espontaneamente, e fundamental no processo de rompimento com os bloqueios ideológicos do egoísmo capitalista implantado no povo. Por isso que nas reuniões se fala tanto em “Não somos seres acabados. Estamos em construção.”

   Concluo esse escrito com uma confissão. Ao ultrapassar a metade das linhas, dei-me conta que nada de novo havia. Ora, em todo lugar que ando essa pulsante solidariedade está presente! Aí me bateu um desânimo. Que graça teria para alguém ler algo sobre fatos tão corriqueiros?

    Antes que o texto perdesse totalmente a razão de ser, no entanto, um estalo revirou meu pensamento: É por isso mesmo!!! É justamente pela não exclusividade, é exatamente por existir em vastos locais, que o espírito de solidariedade se enche de absoluto sentido!

    É por transbordar, por não se deter ante nenhuma barreira, que, de átomo em átomo, o espírito se faz corpo inteiro; que, de verso em verso, a costura militante da liga entre as solidariedades que ligam os oprimidos escreve com letras vivificantes o belíssimo e incluso poema de amor de nome Revolução.


 

 

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