sábado, 1 de abril de 2023

TODA A GENTE UNIDA CONTRA O DESPEJO DA GREGÓRIO!


                    Equipe de Comunicação da Organização Popular – OPA

 

No município de Jaguaruana, localizado no interior do Ceará, havia uma fazenda abandonada há anos. Quando ativa, esta terra era usada para produção empresarial de camarão, que, segundo pesquisas, consome cerca de 60.000 litros de água doce por quilo de animal produzido. Além disso, comprovadamente, a carcinicultura promove intensa destruição e poluição de ecossistemas.

Em 25 de fevereiro, 50 famílias agricultoras Sem Terra, oriundas de 12 bairros e comunidades diferentes de Jaguaruana, se organizaram na OPA e ocuparam a fazenda.

Esta fazenda estava abandonada há mais de seis anos. Sem contar que, quando chegamos, encontramos uma terra adoecida. Mas já começamos a recuperar ela. Plantamos feijão, jerimum, melancia, milho... tudo sem veneno! Trabalhamos para ter alimentos saudáveis para nossos filhos e para toda a região. Se Deus quiser vamos transformar a Ocupação Gregório Bezerra num local de vida, num local de produção de saúde”, declara Ana Kelly, moradora.

Para surpresa das famílias, ontem pela manhã, 31/03, um oficial de justiça se dirigiu até a comunidade para entregar uma liminar de despejo, exigindo que as famílias saíssem imediatamente. O parecer do juiz que deu a ordem, Diogo Altorbelli Silva de Freitas, está baseado em inverdades.

Ao contrário do que consta no laudo emitido pelo magistrado, como toda população bem sabe, a área há anos não cumpre sua função social. O abandono pode ser facilmente verificado na foto abaixo, feita no dia da ocupação. Se houver alguma dúvida em relação a tudo o que aqui está sendo relatado, a Comunidade Gregório Bezerra – OPA convida você para vir aqui e conferir com os próprios olhos.

A Constituição Federal prevê no artigo 184 a desapropriação para fins de Reforma Agrária do imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social. Alô governos estadual e federal! Os senhores, que já estão cientes do problema... Tá na hora de agir em favor dos direitos do povo.

Nós, que construímos a Organização Popular, acreditamos que a Casa Comum, como o Papa Francisco chama o planeta que habitamos, deve ser local de dignidade para todas as pessoas, e não somente para um punhado de gente rica. Por esse motivo, não sairemos da terra e resistiremos até o fim.

Se você também acredita que a vida deve estar acima do lucro, nesta Semana Santa não lave as mãos! Junte-se a esta luta e SEJA CONTRA O DESPEJO DAS FAMÍLIAS DA OCUPAÇÃO GREGÓRIO BEZERRA!


UNIR! LUTAR! CONSTRUIR PODER POPULAR!

 

                        Casas dos antigos donos estão completamente deterioradas, comprovando total abandono.

sexta-feira, 24 de março de 2023

No Dia Mundial da Água, comunidades celebram luta em defesa da Casa Comum e cobram do governo do Ceará respostas concretas para os graves problemas sentidos



                                                                                                                   Equipe de Comunicação da OPA.

 

Em 22 de março, Dia Mundial da Água, no município de Fortim-CE, a Organização Popular – OPA, junto com inúmeras organizações e comunidades, realizaram a Celebração da Luta em Defesa do Território, da Água e da Casa Comum.

Participaram representações de comunidades de todo o Ceará e de outros estados. Freiras, padres, pastores, políticos também se fizeram presentes. A mistura de cores foi embalada por canções da luta popular e por falas de compromisso com a defesa da vida em sua plenitude. São pessoas que já fazem em seu cotidiano o que pregam. Afinal de contas, “a melhor maneira de dizer é fazer”.

A mística advinda da união do povo oprimido e explorado contra o sistema do capital, que massacra a maioria da população e destrói impiedosamente a natureza, foi de arrepiar do começo ao fim. Em resposta às constantes ameaças de morte que trabalhadoras e trabalhadores têm sofrido, as comunidades cantaram em uníssono: “O risco que corre o pau corre o machado, não há o que temer, aqueles que mandam matar também podem morrer”, canção do sempre camarada Luiz Vila Nova.


        Todos e todas deputados estaduais que se dizem de esquerda receberam convites em mãos em seus gabinetes, mas apenas o deputado Renato Roseno compareceu. Também esteve presente o vereador de Fortaleza, Gabriel Biologia. Ambos saudados entusiasticamente pelo povo. “Sabemos quem está verdadeiramente de nosso lado em momentos como este, quando o nó aperta”, declarou Maria Gomes, da comunidade Dom Fragoso, de Jaguaruana.

João Alfredo, conhecido militante da classe trabalhadora e atualmente superintendente do IDACE – Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará, ao tratar dos graves conflitos ora existentes em Fortim, comprometeu-se ao microfone em resolver a situação em favor dos guardiões e guardiãs da biodiversidade e autênticos donos do território: o povo nativo.

Lideranças comunitárias se sucederam em denúncias que revelaram flagrantes crimes contra a vida, cometidos por grandes projetos empresariais instalados no Ceará. Ao final, leu-se uma carta, escrita por todas estas mãos e endereçada ao governador Elmano de Freitas, cobrando, “com a paciência que as condições acima descritas permitir”, o agendamento de uma audiência de encaminhamento com a comissão das organizações populares participantes. “Temos propostas concretas de superação dos problemas sentidos. Esperamos que o governador não unja suas mãos com o sangue da omissão”, ponderou Elen Silva, atingida pelos crimes cometidos com a construção da Barragem de Fronteiras, em Crateús.


Padre Lopes encerrou a Celebração com uma grande ciranda, simbolizando o compromisso coletivo com a luta do povo em defesa da Casa Comum.



terça-feira, 7 de março de 2023

NOVE REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA MILITANTE


 

Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA.

 

1.    O motor e a direção: A indignação e a compaixão, ou seja, a capacidade de se colocar honestamente no lugar do outro, da outra, são motores que nos impulsionam, nos movimentam e redefinem prioridades em nossas vidas. Devemos buscar constantemente formas de nos mantermos sensíveis à opressão e exploração sentida pelo povo. Já a direção, ou, em outras palavras, o caminho necessário a se trilhar para a superação dos problemas sentidos, é conferida pela reflexão, pela formação. A revolta pode provocar grandes estouros, mas, por si só, é incapaz de remover a montanha que nos esmaga. Por outro lado, quando a reflexão não leva à ação, é sinal de que o espírito de solidariedade não habita aquele corpo e, desta forma, toda letra é morta.

 

2.     Do imediato ao geral: Na tempestade em que vivemos é urgente o aparo das goteiras com baldes. Quem tem fome tem pressa! Entretanto, é preciso que cada ação, cada atitude tomada no sentido de aliviar as dores sofridas, se converta também em construção de mecanismos que apontem para a troca do telhado. A miséria em que vive a imensa maioria da população é artificialmente produzida, é planejada. E mais: é a consequência lógica de uma estrutura social embasada na propriedade privada e no lucro. Compreender e sentir nas próprias entranhas a necessidade de uma revolução social embasa a prática militante de uma intencionalidade essencial. Não sendo assim, por mais boa vontade que tenhamos, por maior que seja a disposição, estaremos servindo aos planos que pretendem manter vivo o sistema de morte.

 

3.     Participações: Temos a missão de envolver o máximo de gente possível para este objetivo comum. Toda e qualquer pessoa pode contribuir, isso porque não há somente uma forma de participar. Sim, há aqueles e aquelas que estarão na linha de frente, porém, sem retaguarda, nenhuma vitória é possível. E nós queremos vencer! Queremos construir uma sociedade em que possamos viver todas como irmãs e irmãos. Para isso é preciso derrotar, vencer o capitalismo. Assim, se faz desafio permanente encontrar metodologias e tarefas várias que assegurem o mais amplo envolvimento com a causa. A senhorinha não vai para as lutas, mas apronta o cafezinho da reunião. Fulano não pode aparecer ainda, senão perde o emprego, mas é estimulado a realizar uma campanha na comunidade para arrecadar os fundos necessários à execução da tarefa. E assim vai.

 

4.    A coordenação: Coordenação não é opção. É necessidade. Quanto mais coesa, maior a eficácia de suas ações. Coesão, no entanto, não significa uniformidade. Dentro de uma mesma coordenação a maneira de cada um contribuir também é múltipla. Algumas pessoas são mais hábeis na lida direta com o povo, outras na comunicação ou na organização das finanças, e assim por diante. Coesão é fazer com que as variadas formas de participação ajam o máximo possível de forma articuladas. Para que isso aconteça, avaliação e planejamento são instrumentos imprescindíveis. O fundamental à toda militância e, por tabela, a todo coletivo dirigente, é o compromisso com a verdade e com a entrega, a disposição para a construção dos objetivos comuns.

 

5.      Autossustentação: A organização que se pretende fiel à classe oprimida e explorada deve ser sustentada por ela. Mesmo tarefas assistencialistas, em que a autossustentação não é levada em conta, não acontecem sem que alguém as financie. “E quem paga a banda, escolhe a música”. Não tem jeito! Sem contar que não existe ninguém, por mais lascado que seja, que não possa contribuir financeiramente com sua organização. Isso é extremamente pedagógico! Forma consciência. Quando a autossustentação é trabalhada internamente e ainda assim o militante não contribui, é sinal que está faltando algo indispensável à sua consciência. “De cada um segundo suas possibilidades, à cada um segundo suas necessidades” é um princípio a ser construído desde já.

 

6.   Amor e ódio: É impossível amar a humanidade sem odiar o sistema que provoca tantas mortes e tanto adoecimento evitáveis. Neste sentido, amor e ódio são irmãos siameses, um não existe sem o outro. No entanto, somente guiado pelo amor um ser humano ou uma organização é capaz de construir um mundo verdadeiramente irmão. Sendo assim, que o amor governe e conduza a correta aplicação da energia produzida por seu parceiro inseparável.

 

7.      A base: O trabalho de base é base da organização, até para fazer jus ao nome. “Se distanciar do povo é uma maneira de trair o povo”. Isso não quer dizer que devamos ou consigamos estar toda a militância diretamente empenhada nesta única tarefa. As necessidades organizativas e capacidades militantes são variadas, como já foi dito. O importante é a organização como um todo se planejar e se movimentar priorizando este vínculo. Sem isso, dificilmente passaremos de força auxiliar da dominação.

 

8.      Preparação: Quanto mais complexa é a tarefa, mais consistente será a formação da militância que assumi-la, maior será o aprendizado. Devemos, portanto, encarar os desafios mais difíceis como excelentes oportunidades de nos tornarmos pessoas melhor preparadas para servir ao povo. Sem falar que ser escolhido ou escolhida para tais incumbências representa um reconhecimento coletivo pelo compromisso e capacidade demonstrados. Pode doer, dúvidas e medos certamente aparecerão, mas estejamos certos de que, assim como o aço não se molda sem o calor, a militância não se forma sem ser experimentada no fogo das tribulações inevitáveis.

 

9.    Causa e organização: Sem organização, a causa não passa de atoleiro de boas-vontades. A gente patina, patina e não sai do canto. Em contrapartida, é a causa que confere sentido à organização. A causa define a estratégia a seguir. É através dela que os valores da prática militante se alinham. Por ela fazemos nossas críticas e autocríticas. Se, em nome da manutenção de alianças, por exemplo, nos calamos, falamos meias verdades, mentimos para o povo, melhor que nem exista organização. Ao agir assim, serviríamos à dominação, ainda que permeados de adornos críticos. Não passaríamos de uma organização de plástico, morta, existindo única e exclusivamente para enfeitar os porões do capitalismo.

 

Irmãs e irmãos, companheiros e companheiras, camaradas, testemunhemos com a vida a fé que expressamos em nossa luta, em nosso povo e na causa de sua libertação.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Renasce Gregório na luta do povo

 


                       Thales Emmanuel, militante da OPA.

 

No dia 25 de fevereiro renasceu Gregório Bezerra, camponês nordestino, destemido comunista, histórico lutador do povo. Renasceu porque aqueles e aquelas que entregam sua vida à causa da justiça, da libertação da humanidade, não morrem jamais.

            Era cedo da manhã quando as famílias começaram a se concentrar na praça da matriz de Jaguaruana-CE. Logo em seguida, várias pessoas de organizações parceiras se juntaram com animação. Lemos o panfleto que explicava o porquê de estarmos ali. Foi no alto-falante, para todo mundo ouvir: “Queremos um pedaço de terra para produzir alimentos saudáveis e sustentar nossas famílias, zelando a natureza. Lutamos em defesa da CASA COMUM”.

            Depois daí, saímos em marcha pelas ruas da cidade cantando nossas canções e conversando com o povo, para mostrar que esta luta é de todos nós: “A vida deve estar acima do lucro!” Recebemos bastante apoio, tanto que, quando um colunista bajulador dos ricos nos chamou de “terroristas e invasores” nas suas redes virtuais, não faltou quem nos defendesse.

            Concluída a primeira etapa, rumamos direto para o terreno, uma fazenda de criação de camarão empresarial abandonada há quase uma década e que degradou e envenenou toda a região. Uma das primeiras atitudes na nova terra ocupada foi o plantio de mudas frutíferas, reafirmando o compromisso com a produção saudável e diversificada.

            Rumores de ameaças de morte não faltaram, mas o medo ficou do lado de fora da cerca, junto com o passado de exploração e humilhação. Agora vale o lema da Organização Popular: “Mexeu com uma, mexeu com todas!”

GREGÓRIO BEZERRA, o nome escolhido em assembleia com as famílias camponesas para a nova comunidade fala por si, “feito de ferro e de flor”.

Nem a covardia da tortura e do cárcere foi capaz de lhe deter. Renasce, Gregório, na luta do povo, quantas vezes necessário for.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

SOS FORTIM

 


Quem acha que invasão, expulsão, perseguição, caravelas e Cabrais são coisas do passado, se engana redondamente! Em Fortim, município localizado no litoral leste do Ceará, a crueldade dos ricos colonizadores contra o povo se renova à cada festa de “Feliz ano novo!”.

O nome muda, mas a sina é a mesma. Agora é a especulação imobiliária, são os grandes hotéis, construtoras, o poder econômico capitalista bancando pistolagem para amedrontar o povo nativo. A Polícia Militar tem sido instrumentalizada para estes propósitos também. Ao invés de assegurar os direitos da população, vira capanga de empresário e se vale do salário e equipamentos pagos pelo povo para reprimir a gente trabalhadora que resiste à expulsão ou luta para reaver suas terras e dignidade roubadas.

O conflito tem sido permanente. Ameaças, invasão e destruição de casas de famílias, derrubada de barracas de pescadores... enfim, tal e qual 1500. As instâncias do poder público municipal e estadual estão a par da situação, e não é de agora. Sabem da grilagem e de tudo que vem acontecendo – várias foram as denúncias e audiências –, mas não tomam nenhuma medida enérgica para conter a sanha empresarial. O que estão esperando? Que alguém seja assassinado?

Se querem saber: NÃO NOS DOBRAREMOS! Como grita o povo nativo de Fortim: ESTA TERRA É NOSSA! É NOSSA CASA COMUM! Queremos sossego para criar nossas crianças e, para tal, honraremos a história de nossos ancestrais, que lutaram até o fim, adubando com a vida esta esperança teimosa em um mundo irmão.

 

OPA – Organização Popular

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

QUILOMBO DO CUMBE CELEBRA VII FESTA DO MANGUE


                                                                    

                                       Tiago Pereira – Equipe de Comunicação da OPA.

 

De 02 à 04 de dezembro, a comunidade quilombola do Cumbe, localizada na cidade de Aracati-CE, realizou sua VIII Festa do Mangue, com o tema Manguezal: Berçário da Vida Marinha e do Bem-Viver (Biointeração) dos Povos das Águas. O evento, marcado com trocas de experiências, saberes e sabores, já é uma festa tradicional da comunidade.

Através da Associação Quilombola do Cumbe, do Ponto de Cultura Chama Maré e de inúmeras parcerias, a atividade contou com a participação de mais de 400 pessoas vindas do Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte e Ceará.

Os objetivos principais são ocupar o território, dar visibilidade à luta e ao ecossistema manguezal e dunas, como também fortalecer a identidade quilombola pesqueira. Para Cleomar Ribeiro, quilombola, pescadora e atual presidenta da Associação, “essas práticas são nossas, vindas de nossos pais, avós e de nossos ancestrais. É um momento de celebrar, em que as pessoas convidadas convivem com as famílias. É costume nosso receber um amigo ou parente, levar para pescar e o que pegamos, como búzio, ostra e caranguejo, é comido lá mesmo. Como chamamos aqui: o comer no mato”.

Todos que fazem parte da Associação contribuem para este momento, como é o caso de Natiel Bernardo, do coletivo LGBT. Para ele, a festa “traz a proximidade com os jovens e aumenta seus interesses pelas causas da comunidade. Assim, assumem responsabilidades futuramente.”

A atividade ocorre na semana em que a comunidade celebra o Dia do Quilombo, data da certificação conferida pela Fundação Palmares. Reconhecimento este anulado recentemente de forma criminosa por representante do poder judiciário.

Na programação tem passeio nas dunas, oficinas de mariscagem e pesca, apresentações de grupos culturais e muita vivência no mangue, como captura de caranguejo, cata do sururu, búzio e ostras.

Camila, professora da Universidade Estadual do Ceará, define o evento “como um momento de resistência, de organização e reorganização da luta.”

            A festa se encerrou com um torneio de “pega de caranguejo” e uma grande caranguejada.


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

ALDEIA ANACÉ: UM PORTAL PARA A VIDA


 

                                                                     Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA.

 

Caminhando pela estrada de areia, cruzando com largas toras de troncos de barricada, parecíamos atravessar um portal que nos transportava a outro mundo.

Permeando o novo ambiente, logo nos deparamos com uma deslumbrante natureza, respeitada e amada como mãe da vida. A agricultura se dava em meio à diversidade de árvores e cantos de passarinho. A acolhida a nós, visitantes, foi totalmente isenta de formalismos. Vinha do coração. E, rapidinho, rola um bate-bola, cheio de risos e afeições. Mulher, homem, criança, tudo integrado, como uma floresta. Se não soubesse que estávamos nos conhecendo ali, naquele momento, diria que éramos amigos de infância, parentes próximos.

A terra nos dava boas-vindas acariciando nossos pés. O vento, que ziguezagueava entre as folhagens, espantava para longe o medo da repressão judiciada. Parecia polinizar de esperança a quem quisesse esperançar, sem que cercas e muros conseguissem empatar.

O almoço é servido! Cozinha coletiva. Onde há partilha, comunhão, ninguém passa fome. Mais à frente, o artista pinta e se pinta com traços de ancestralidade. O jenipapo ganha novos contornos nas peles da gente sonhadora. Traços de memória, rabiscos de resistência.

Frondosas árvores se uniam a partir de riba num pacto refrescante que fazia a conversa rolar solta. Cada um, cada uma ali valia pelo que tinha. Sim, pelo que tinha! E era somente amor, somente verdade o que se carregava nos bolsos.

Que mundo é este, afinal, para o qual, nós, militantes da OPA, fomos transportados naquela terça-feira, 15 de novembro de 2022?

É um mundo de resistência, como milhares de outros, que vive dentro e perseguido pelos donos do mundo cujo Lucro é o senhor. É uma aldeia Anacé, território indígena retomado, localizado no município de Caucaia-CE. Comunidade atualmente ameaçada de despejo por ordem da “Justiça”!

No Brasil, já são mais de quinhentos anos de movimento indígena abrindo portais, pontes, máquina do tempo engendrada com a única tecnologia capaz de levar a humanidade adiante: o amor à vida.

Agora e mais uma vez os Anacé abrem portais em nossas consciências, luzes que ajudam a enxergar as veredas de possibilidades para um novo tempo. Tempo que nasce da solidariedade entre aquelas e aqueles que anseiam pela a harmonia entre todos os seres, e por isso mesmo se unem para enfrentar os ídolos de uma sociedade de valores invertidos.

        À luta! À luta! À luta! Nos agarremos à ela, em qualquer lugar em que ela seja verdadeira expressão da vida. Sim!, porque num mundo em que um pretenso deus de nome Mercado se enfurece ao ouvir falar de combate à fome, vida só pode ser sinônimo de luta; e luta... o portal para a vida.

ENTRE O SILÊNCIO E O SILENCIAMENTO O que o Plebiscito Popular contra a chuva de veneno nos ensina

  Thales Emmanuel, militante da OPA          O Plebiscito Popular sobre a lei que autoriza a pulverização de agrotóxico por drones no Ceará...