(Ficção baseada e inspiradora de fatos reais)
No dia 19 de dezembro de 2024, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), sanciona, em tempo recorde, uma lei que autoriza a pulverização aérea de agrotóxico por drone no estado.
Contando com a aprovação de 22 deputados de vários partidos, inclusive de todos os seus opositores, o cancerígeno agronegócio triunfa mais uma vez. Na ocasião, apenas 9 parlamentares votaram contra a chuva de veneno. Um se absteve.
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Quatro de fevereiro de 2025. A primeira sessão do ano da ALECE, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, está com sua plenária completamente lotada e impecavelmente preparada para mais um evento especial. Deputados, empresários, o governador e sua comitiva, todos ali presentes para a concessão do título de Cidadão Cearense ao grande empresário do agronegócio, o senhor Jota Peixeira.
Jornalistas se posicionam para melhor cobrir aquele instante de plena magia, alguns bem trajados com a estampa "Agro é tech, Agro é pop, Agro é tudo!"
Depois de um probleminha na revista de entrada, um grupo de dez estudantes acomoda-se na pequena arquibancada do piso superior, destinada a quem do povão queira prestigiar a solenidade.
Em protesto, alguns poucos deputados se sentam na mesma galeria com o povão. Entre eles, Renato Roseno (PSOL), uma espécie de pregador no deserto parlamentar contra a chuva de veneno.
A solenidade se inicia. As autoridades mais importantes se sucedem nas falas, uma por uma. É um "vossa excelência" daqui, um "vossa excelência" dali... Lideranças de movimentos sociais são capturadas pelas câmeras, entre as celebridades.
Tanto na arquibancada quanto entre as autoridades, alguns pescam breves cochilos. As câmeras não mostram.
Chegado o momento de apoteose, aquele em que o presidente da sessão e o homenageado seguram lado a lado a honraria impressa para um piscar interminável de flashes, um dos estudantes retira de sua mochila um drone carregado com um líquido de amarelado fluorescente, que logo se pôe a voar pela plenária, pulverizando todos lá em baixo.
As primeiras gotas caem sobre o deputado Felipe Mota, do União Brasil, que em dezembro ameaçara invadir um órgão público com 400 tratores, caso a lei dos drones não fosse aprovada. Ele cheira cautelosamente seu blazer, já começando a encharcar, e, numa expressão de puro pânico, grita histericamente:
- É venenooooo! Socorro! Seguranças, está chovendo veneno na plenária! Acuda aqui!!!
Sua valentia de outrora escorre feito barro mole por entre as pernas.
A partir daí, tudo vira um verdadeiro alvoroço! É uma gritaria sem fim, um corre-corre desesperado. Autoridades caindo umas por cima das outras, à procura de abrigo seguro.
Os seguranças, com medo da substância tóxica anunciada, não se atrevem a sair da proteção de sua sala.
“Eu, hein! Morrer de graça, se é praticamente de graça que trabalho”, refletem.
Doutora Silvana (PL), conhecida pelo seu extremismo de direita e terrivelmente favorável à lei dos drones, agarra-se, ajoelhada, a um deputado da esquerda, e chora copiosamente:
- Meu vermelhinho, nós vamos morrer! Meu vermelhinho...
O empresário homenageado, senhor Jota Peixeira, ensopado e paralisado pelo estado de choque no alto do lugar de honra, ergue as mãos aos céus e confessa, como se negociasse com um plano Divino desconfiado da sinceridade de suas preces:
- Fui eu, meu Deus, fui eu! Fui eu quem mandou matar o trabalhador Zé Maria do Tomé. Eu pequei, mas não peco mais. Me perdoe por tudo que há de mais sagrado. Agora, pelo amor de Deus, meu Deus, me salve desse fim horrendo, eu e meu patrimônio! Para que eu possa, vivo e com minhas propriedades, ajudar a quem mais precisa.
Na arquibancada e nas TVs, onde a audiência está enorme e a pulverização não alcança, a alegria toma de conta. A favela lança fogos de artifício ao ar. O povão está por cima da carne seca, como só algumas vezes acontecera na história da humanidade.
O comportamento festivo chama a atenção do governador, que, em meio ao caos, para, desiste de tentar fugir do céu nublado da Assembleia. Desconfiado, cheira então suas mãos molhadas. De imediato, imagens ocupam sua cabeça, relembrando o tempo em que era advogado dos Sem Terra e lutava contra o agronegócio e seu projeto de morte.
“Peraí! Já vi esse filme antes”, pensa.
Sem graça, como quem descobre ser vítima de uma pegadinha, o governador caminha lentamente até o microfone mais próximo e fala:
- É mijo, minha gente! Quando lavar, sai.
Todo o ambiente mergulha no mais absoluto silêncio. Como estátuas de pedra, ninguém se move, a não ser o odor da urina, que ganha as ruas.
É aí que o deputado Renato Roseno, sempre muito diplomático, agora compreendendo o que se passava, não se contém e cai na gargalhada. Entre fortes soluços e mais risos, ele finalmente solta a voz, esforçando-se para não perder o decoro:
- Se com uma chuvinha inofensiva de mijo vossas excelências ficam assim, imagina se fosse chuva de veneno. Kkkkkkkkkkk...
João Grilolândio Suassuna