segunda-feira, 17 de março de 2025

“CHUVA DE MIJO NUNCA MAIS!”

(Ficção baseada e inspiradora de fatos reais)

No dia 19 de dezembro de 2024, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), sanciona, em tempo recorde, uma lei que autoriza a pulverização aérea de agrotóxico por drone no estado.

Contando com a aprovação de 22 deputados de vários partidos, inclusive de todos os seus opositores, o cancerígeno agronegócio triunfa mais uma vez. Na ocasião, apenas 9 parlamentares votaram contra a chuva de veneno. Um se absteve.

...

   Quatro de fevereiro de 2025. A primeira sessão do ano da ALECE, a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, está com sua plenária completamente lotada e impecavelmente preparada para mais um evento especial. Deputados, empresários, o governador e sua comitiva, todos ali presentes para a concessão do título de Cidadão Cearense ao grande empresário do agronegócio, o senhor Jota Peixeira.

   Jornalistas se posicionam para melhor cobrir aquele instante de plena magia, alguns bem trajados com a estampa "Agro é tech, Agro é pop, Agro é tudo!"

   Depois de um probleminha na revista de entrada, um grupo de dez estudantes acomoda-se na pequena arquibancada do piso superior, destinada a quem do povão queira prestigiar a solenidade.

   Em protesto, alguns poucos deputados se sentam na mesma galeria com o povão. Entre eles, Renato Roseno (PSOL), uma espécie de pregador no deserto parlamentar contra a chuva de veneno.

   A solenidade se inicia. As autoridades mais importantes se sucedem nas falas, uma por uma. É um "vossa excelência" daqui, um "vossa excelência" dali... Lideranças de movimentos sociais são capturadas pelas câmeras, entre as celebridades.

   Tanto na arquibancada quanto entre as autoridades, alguns pescam breves cochilos. As câmeras não mostram.

   Chegado o momento de apoteose, aquele em que o presidente da sessão e o homenageado seguram lado a lado a honraria impressa para um piscar interminável de flashes, um dos estudantes retira de sua mochila um drone carregado com um líquido de amarelado fluorescente, que logo se pôe a voar pela plenária, pulverizando todos lá em baixo.

   As primeiras gotas caem sobre o deputado Felipe Mota, do União Brasil, que em dezembro ameaçara invadir um órgão público com 400 tratores, caso a lei dos drones não fosse aprovada. Ele cheira cautelosamente seu blazer, já começando a encharcar, e, numa expressão de puro pânico, grita histericamente:

- É venenooooo! Socorro! Seguranças, está chovendo veneno na plenária! Acuda aqui!!!

   Sua valentia de outrora escorre feito barro mole por entre as pernas.

   A partir daí, tudo vira um verdadeiro alvoroço! É uma gritaria sem fim, um corre-corre desesperado. Autoridades caindo umas por cima das outras, à procura de abrigo seguro.

   Os seguranças, com medo da substância tóxica anunciada, não se atrevem a sair da proteção de sua sala.

“Eu, hein! Morrer de graça, se é praticamente de graça que trabalho”, refletem.

   Doutora Silvana (PL), conhecida pelo seu extremismo de direita e terrivelmente favorável à lei dos drones, agarra-se, ajoelhada, a um deputado da esquerda, e chora copiosamente:

- Meu vermelhinho, nós vamos morrer! Meu vermelhinho...

   O empresário homenageado, senhor Jota Peixeira, ensopado e paralisado pelo estado de choque no alto do lugar de honra, ergue as mãos aos céus e confessa, como se negociasse com um plano Divino desconfiado da sinceridade de suas preces:

- Fui eu, meu Deus, fui eu! Fui eu quem mandou matar o trabalhador Zé Maria do Tomé. Eu pequei, mas não peco mais. Me perdoe por tudo que há de mais sagrado. Agora, pelo amor de Deus, meu Deus, me salve desse fim horrendo, eu e meu patrimônio! Para que eu possa, vivo e com minhas propriedades, ajudar a quem mais precisa.

   Na arquibancada e nas TVs, onde a audiência está enorme e a pulverização não alcança, a alegria toma de conta. A favela lança fogos de artifício ao ar. O povão está por cima da carne seca, como só algumas vezes acontecera na história da humanidade.

   O comportamento festivo chama a atenção do governador, que, em meio ao caos, para, desiste de tentar fugir do céu nublado da Assembleia. Desconfiado, cheira então suas mãos molhadas. De imediato, imagens ocupam sua cabeça, relembrando o tempo em que era advogado dos Sem Terra e lutava contra o agronegócio e seu projeto de morte.

“Peraí! Já vi esse filme antes”, pensa.

   Sem graça, como quem descobre ser vítima de uma pegadinha, o governador caminha lentamente até o microfone mais próximo e fala:

- É mijo, minha gente! Quando lavar, sai.

   Todo o ambiente mergulha no mais absoluto silêncio. Como estátuas de pedra, ninguém se move, a não ser o odor da urina, que ganha as ruas.

   É aí que o deputado Renato Roseno, sempre muito diplomático, agora compreendendo o que se passava, não se contém e cai na gargalhada. Entre fortes soluços e mais risos, ele finalmente solta a voz, esforçando-se para não perder o decoro:

- Se com uma chuvinha inofensiva de mijo vossas excelências ficam assim, imagina se fosse chuva de veneno. Kkkkkkkkkkk...


João Grilolândio Suassuna

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA. DIREITOS PARA QUEM PRECISA DE DIREITOS.

 



Equipe de comunicação da OPA/ Ocupação Marielle Franco - Teresina

 

Aproximadamente 50 mil famílias sobrevivem sem moradia adequada em Teresina. Somente elas e Deus sabem como!

No dia 30 de janeiro passado, esse doloroso número aumentou quando 80 casas da Ocupação Marielle Franco foram impiedosamente destruídas em violento despejo.

O Estado, que deveria assegurar um direito impresso na Constituição Federal, lei maior do país, apresenta-se como infrator e promotor direto das injustiças.

Além do mais, fora o terreno ocupado não cumprir qualquer função social há mais de década, as famílias da Marielle conseguiram reunir um conjunto de documentos que apontam para fortes indícios de grilagem.

A COAVE, empresa que pedira ao Judiciário o despejo das famílias, estaria roubando para si o terreno que, ao que tudo indica, é público!

Empurradas pela necessidade e por sonhos de vida digna, na manhã de ontem, 20 de fevereiro, Dia Mundial da Justiça Social, as famílias da Ocupação Marielle Franco derrubaram a cerca e retomaram o território, enfrentando corajosamente os capangas que a COAVE contratara e resistindo às investidas da Polícia Militar, que em poucas horas aparecera ao menos três vezes no local, obedientemente acompanhada por representante da empresa e tentando intimidar o povo com ameaças.


"Policial, receba esta documentação. Ela comprova que existe um crime flagrante aqui. O crime está sendo cometido agora, neste momento! Os capangas da empresa estão agindo à luz do dia. Esta terra está sendo grilada. Veja! Segure este documento. Terra pública sendo grilada!", falou indignado Raimundo Borges, integrante da Marielle, numa das aparições da PM.

Respondendo não ser esta atribuição da Polícia, o comandante da operação emendou com arrogância, como se nenhuma denúncia houvesse sido feita:                                                                                                                                                                                                                                        "Vocês sabem que estão desobedecendo uma ordem judicial, que podem sofrer as consequências por isso? É melhor saírem e esperarem fora da terra." 




Segundo consta nos autos do processo, a área registrada como sendo da COAVE é de 0,8 ha e se localiza numa esquina do quarteirão. A ocupada pela Marielle Franco fica na diagonal oposta do mesmo quarteirão, em outro terreno, em outra rua, e possui um tamanho de 1,6 hectares. O dobro!

Como pode uma posse ser reintegrada a quem não tem a posse?!

Seria sensato da parte do juiz realizar uma perícia, como orientou o promotor antes mesmo de ordenado o despejo. A comunidade o convida, inclusive, para ir ao local e descobrir com os próprios olhos e ouvidos quem está com a verdade.

Polícia para quem precisa de polícia. Direitos para quem precisa de direitos.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

COMO FAZER PARA UNIR A ESQUERDA?

 


Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular - OPA

 

“Cuidado com a resposta, porque ela pode mostrar que a pergunta não fazia, absolutamente, nenhum sentido.” Se não entendeu, leia então o que nos disse o companheiro Cícero Passos, agricultor e integrante da OPA na Ocupação Gregório Bezerra, em Jaguaruana-CE.

- Cícero, você sabe como a gente faz para unir a esquerda?

- A esquerda já está unida. Está unida no mundo todo.

- Ãh! Como assim?

 - A esquerda mundial é liberal, é capitalista. Como é que o capitalismo vai andar junto com o comunismo? Isso não vai ajudar. O problema do comunismo é que vai muito para o lado da esquerda mundial. O comunismo pode ser mil veze mais forte, mas não é, porque ainda está acreditando na ideologia da esquerda mundial. E só existe uma esquerda mundial: a capitalista. Isso acaba beneficiando os grandes empresários e os banqueiros. Só há uma forma do comunismo ser comunista, é servindo ao povo com intensidade, lutar pela causa do povo, estando no meio do povo, para que o povo possa ter confiança nele. No dia em que o povo tiver confiança no comunismo, no dia em que acreditar no comunismo, ele vai fazer uma grande revolução no Brasil. Porque, na realidade, o povo não sabe nem o que é comunismo. Os comunistas estão muito longe do povo. No dia em que o povo acreditar, confiar no comunismo, no dia em que o povo acreditar que os comunistas estão junto com o povo, o povo estará junto com os comunistas. Aí, sim, nós vamos fazer uma revolução; mas antes, não.

Cícero não nega, em absoluto, a importância de lutas comuns com a esquerda liberal, como as contra o fascismo, por exemplo. O que ele tenta nos explicar é que a unidade para a revolução não vem do consenso com “a esquerda”, mas da força gravitacional gerada a partir da inserção ativa e cotidiana da militância revolucionária no ceio da classe.

            Enfim, o desafio está dado! Reformulemos as perguntas.


quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A LÃ

 


 

No auge da repressão contra a Ocupação Carlos Marighella, em Fortaleza, representantes de uma instituição conhecidamente contrária à luta do povo, apareceram na comunidade distribuindo sorrisos e presentes para as crianças. Ao nos aproximarmos, fomos apresentados.

- Nós estamos aqui para apoiar as famílias. Semana que vem traremos duzentas cestas básicas!

- Que bom! Mas neste momento temos uma ordem de despejo decretada e não sabemos se próxima semana estaremos aqui. Nossa necessidade maior agora são vídeos contra o despejo. Tem como conversar com sua liderança e pedir para ela gravar uma fala dizendo “Eu apoio a Ocupação Carlos Marighella”?

Não voltaram mais.

Alguns ataques que recebemos são travestidos de apoio. Não é simples para o povo, em meio a tantas carências, identificar de prontidão ou mesmo agir contra os coiotes, geralmente lanados de atraente sedução e “bondade”. Em alguns casos, uma denúncia direta pode ser manipulada e o povo se voltar fatalmente contra o denunciante.

É preciso agir com sabedoria. Em boa parte das situações, o melhor é criar mecanismos que encalacrem o farsante e façam com que este revele por si mesmo seus reais interesses.

Para ilustrar, vale citar um episódio em que a construção de uma grande obra impactava mortalmente dezenas de comunidades na zona rural do Piauí. O governo era o financiador (dinheiro público) e quem controlava a execução do empreendimento, que beneficiaria empresas privadas da construção civil, do agronegócio e da mineração.

Por uma questão de lógica, sabíamos que as organizações que compunham o governo, ainda que originadas do seio do povo ou que agiam em nome deste, dificultariam qualquer iniciativa séria de luta. Em contrapartida, se denunciássemos de bate-pronto as “imperceptíveis” armadilhas criadas, naquele estágio da caminhada, o povo provavelmente não entenderia.

            Mais uma vez, é uma questão de lógica. Se um corpo precisa atravessar um rio, e um outro, por acordos feitos com a chefia administrativa da floresta, tem como atribuição o de impedir que se entre na água, logicamente eles irão se chocar. Ainda que o atrito só se torne visível a todos quando o primeiro se aproximar da margem.

A democracia popular acolhe a mais ampla diversidade de ideias e opiniões, desde que estas não intencionem desarmar os oprimidos de seu alicerce mais sagrado: sua luta e organização; desde que não mutilem a fé que o povo deve sentir em si mesmo e na força transformadora advinda de sua união.

Procuramos então nos focar no que acreditávamos ser o essencial e seguimos construindo a barca, para atravessar o rio, com as ferramentas e a matéria-prima do trabalho de base. Assim, num determinado momento, uma potente ação direta se tornou não só iminente, como incontível. Foi aí que, desesperadas, as “pacíficas ovelhas” apresentaram suas garras e as lideranças das comunidades finalmente perceberam a raiz do conflito de interesses.  

Estes são dilemas reais que invariavelmente nos deparamos quando o mundo das ideias e o mundo da materialidade da vida se tornam um só. No exemplo da Marighella, exposto no início do texto, há também uma lógica inerente. Como mencionar publicamente o nome de um lutador do povo, um comunista, adotado como seu por uma comunidade surgida da ocupação de uma propriedade privada pertencente a um rico empresário, se a função social de minha entidade e dos meus líderes, como parte integrante da classe que domina o sistema, é justamente a criação e difusão de símbolos que gerem a aceitação mansa ou ativa da opressão?

Para finalizar, vale lembrar que há circunstâncias e ocasiões em que a representação do lobo é tão “imperceptivelmente” eficaz, interfere de tal forma, que o que resta fazer é dar um tempo, acompanhar de longe, direcionar esforços para outras batalhas, enquanto o povo aprende com a própria queda a se recolocar de pé.


Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA

domingo, 15 de setembro de 2024

RAIMUNDO CORAGEM


 

Por Thales Emmanuel, militante da Organização Popular – OPA

 

A fazenda que pretendíamos ocupar estava abandonada há anos. O grupo proprietário, muito rico, priorizava outros investimentos e ali só especulava. Ainda assim, entrar naquela terra mexia nas entranhas das famílias agricultoras. Mesmo entregue à ferrugem e, por lei, devendo ser destinada à Reforma Agrária, a grande propriedade representava um temido império na região.

Combinamos que, quem, por força maior, não pudesse comparecer ao ato da ocupação, avisasse via mensagem de celular o quanto antes à coordenação. Alguns informaram, alegando adoecimento. Sem dar nenhuma notícia, seu Raimundo apareceu no terceiro dia de terra ocupada. Aproximou-se meio encabulado, escutou um pouco a conversa e pediu licença para falar.

“Eu não vim por medo”, disse.

“Eu não gosto de mentir”, continuou. As lágrimas escorriam pelo rosto marcado daquele camponês de quase 70 anos de idade.

“A pessoa só deve mentir se for para se defender. O que não é o caso. Eu não gosto de mentir. Eu não vim por medo”, repetiu. Seu Raimundo se tremia.

Depois de mais de um ano de convivência militante e uma carrada de atribulações enfrentadas juntos, arrisco a dizer que não foi somente uma questão de caráter o que levou seu Raimundo a confessar seus sentimentos a pessoas até pouco tempo desconhecidas.

Ele, que poderia ter inventado uma doença ou qualquer outra mentira para justificar sua falta, optara pela verdade, ainda que a justificativa gerasse risos ou não fosse bem aceita pela comunidade como “motivo de força maior”. Afinal de contas, medo todo mundo tinha.

As organizações da classe trabalhadora que defendem uma transformação estrutural da sociedade reduziram seu contato com as necessidades do povo a momentos pontais de agitação. Uma panfletagem aqui, uma atividade cultural ali... Ações importantes, mas insuficientes para construir a confiança necessária. Apesar de praticamente todas diagnosticarem a ausência do Trabalho de Base como uma das principais causas de seus declínios ou vulnerabilidades, poucas e raras são as vezes que ele acontece. Por qual razão? Carência de planejamento, de disponibilidade? Ou será que o que nos falta mesmo é coragem?

         Já seu Raimundo, daquele dia em diante, não perdeu mais nenhuma atividade. Na comunidade, ele ganhou novo sobrenome: Coragem. Raimundo Coragem. Coragem, não por ter participado da heroica resistência contra jagunços armados, como viria a ocorrer dias depois. Coragem por ter tido a coragem de falar a verdade.

domingo, 8 de setembro de 2024

DO QUE NOS ACUSAM OS SENHORES PROPRIETÁRIOS. O QUE DIZEMOS NÓS, TRABALHADORES


   Tomamos conhecimento de um documento emitido pela família proprietária da fazenda Baquit ao senhor juiz da comarca de Jaguaruana-CE. Em linguagem bastante impositiva, dando ordens como se fossem patrões do judiciário, os autores exigem o imediato despejo das famílias da Ocupação Gregório Bezerra II.

   Eles dizem que transitamos na fazenda e entramos em “áreas produtivas”. Perguntamos: A que produtividade mesmo os senhores se referem: a de calangos ou a de ferrugens, que corroem a estrutura há tempos abandonada, como comprovam vídeos por nós apresentados?

   Senhores, não estamos construindo “barracos”, como alegam. Reiniciamos foi o processo de edificação de nossas casas, antes interrompido pela chegada de jagunços encapuzados e armados, que nos ameaçaram e ameaçam, os senhores sabem bem a mando de quem. Construímos casas porque aqui é nosso lar. Os senhores enxergam a terra como fonte de lucro, a devastam, envenenam, depois a desprezam, por isso longe de morarem nela. Para nós, ela é fonte de vida, de dignidade. A gente cuida dela enquanto ela cuida da gente. Lembram das frutas livres de agrotóxicos que os senhores compram nos supermercados para alimentarem suas famílias? Somos nós quem as produzimos.

   No documento, os senhores também nos acusam de “arregimentar” pessoas. Lhes perguntamos: Existe força de atração maior do que as cercas da opressão que os senhores nos impõem? São as suas cercas que fazem chegar em todas as nossas reuniões famílias novatas querendo ingressar na luta pela terra e por dignidade. De onde elas surgem? Por que elas aparecem? E olha que não está sendo nada fácil. Os 50 jagunços enviados na madrugada do dia 26 não derramaram sangue por obra de milagre. Quem gostaria de ver seu filho se tremendo ou desmaiando ante todo aquele terror? Ver trabalhadores de mãos calejadas sendo postos de joelhos, humilhados, também não é nada fácil para quem o sangue corre nas veias. Mas ainda assim chegam novas famílias todos os dias, “arregimentadas”, como dizem os senhores, pela lei maior da necessidade.

   “Arregimentadas” são outras tantas e muitas pessoas que, ao tomarem conhecimento do que estamos passando, começam a nos apoiar. Elas são de todo canto do Brasil. A verdade não conhece fronteiras, senhores. Todos os dias, todos!, recebemos visitas. São comunidades, sindicatos, estudantes, professores, padres, freiras e por aí vai. Fora as mensagens. Temos que estar com os celulares sempre de prontidão, porque a todo instante nossos amigos e amigas nos perguntam como estão as coisas. Sim, senhores, muitas destas pessoas, arregimentadas pela verdade e por um sentimento genuíno de justiça, estarão com a gente até o final, custe o que custar.

   Em outro trecho do documento os senhores chamam nossa ocupação de “esbulho”. Leiam bem: aceitem ou não, OCUPAR É DIREITO NOSSO! A grande propriedade que não cumpre sua função social deve ser desapropriada para fins de Reforma Agrária. Tá na Constituição Federal! Esbulho é quando alguém tenta se beneficiar em proveito próprio, quando invade para enriquecer. Neste caso, o nome é “invasão” mesmo! Invasão que sofremos continuadamente desde abril de 1500. Invasão como a dos jagunços, uma criminosa e covarde ilegalidade para tentar burlar e impedir a garantia de nosso direito constitucional. 

   Os senhores invertem as coisas. Também pudera, nas suas cabeças o lucro está acima da vida. Mas pode ser diferente. Tomara um dia tudo ser diferente! Entre nós e os senhores existe uma coisa que nos impede de viver como irmãos e irmãs que somos. Essa coisa se chama propriedade privada! Ela foi implantada em todos os lugares, e é controlada por poucas mãos. É ela quem faz com que trabalhadores assim como nós, sem propriedade, se submetam por um mísero ganha-pão ao papel criminoso e à chefia covarde de jagunços profissionais, na defesa de interesses opressores. Como disse uma de nossas crianças: “Jagunços, amanhã seu patrão fará contra vocês o que agora fazem contra a gente”. A propriedade é a causa da cegueira que leva os senhores a crerem que mais vale sangue inocente derramado do que tê-la em comunhão.

   Mas pode ser diferente. Tomara um dia tudo ser diferente! Da nossa parte, lutaremos até o fim para que isso aconteça.

  


Ocupação Gregório Bezerra II – OPA

Jaguaruana-CE, 06 de setembro de 2024

 

terça-feira, 16 de julho de 2024

QUANTO VALE UMA VIDA?

 


Coordenação da Organização Popular - OPA

Lutamos tanto em defesa da democracia, mas já passa da hora de nos perguntarmos: Que democracia?

            Há três dias famílias camponesas Sem Terra do município de Jaguaruana, interior do Ceará, encontram-se cara a cara, acuadas por jagunços armados e encapuzados. Há três dias, a situação é amplamente divulgada, autoridades acionadas e, se não é a solidariedade que brota dos quatro cantos do país por setores populares, o que seria de nós? Porque até aqui nada nos chegou das principais instituições do dito “Estado democrático e de direito”.

            Já noticiamos, e todas as pessoas da região sabem bem, que a fazenda ocupada pelos trabalhadores rurais, propriedade da família do deputado estadual Francisco Osmar Diógenes Baquit (PDT), encontra-se há anos abandonada, sem cumprir sua função social. Até a Constituição Federal (Art. 184) diz que, em tal caso, a terra deve ser desapropriada para fins de Reforma Agrária. A lei é infringida impunemente, e à luz do dia, uma, duas, três... as vezes que forem necessárias, se é para favorecer grandes empresários. Será que aos ricos tudo é permitido?

            Em meio ao conflito, as famílias chegaram a apresentar para o chefe do grupo de jagunços um documento comprovando que existe uma negociação iniciada entre o Instituto de Terras do Ceará (IDACE) e a família Baquit, inclusive com um laudo técnico já produzido. O processo está paralisado por divergência nos valores.

            O povo não quer guerra. Quer terra para plantar alimentos saudáveis. Quer sossego, dignidade. Um dos grandes problemas que as milhões de famílias camponesas e o povo em geral enfrentam no Brasil, além da terra concentrada nas mãos de poucos e as consequências rurais e urbanas deste histórico e grave problema social, é que o Estado e seus governos isentam de taxas e liberam, aos bocados, agrotóxicos que destroem o meio ambiente e envenenam a população; entregam aos capitalistas do agronegócio quase 90% de todo dinheiro público utilizado na agricultura, arrecadado dos impostos sobre o suor da classe trabalhadora. Sendo assim, martela em nossas mentes a indagação: Qual é mesmo a real distância existente entre a pólvora dos jagunços e o químico lançado pelas grandes empresas pulverizadoras?

Se há um impasse na negociação sobre o preço a se pagar pela terra, bem da natureza que deveria servir a todas as pessoas gratuitamente, repetimos a pergunta que fizemos outro dia: Quanto vale uma vida?

Quanto vale uma vida, governador?

Quanto vale uma vida, deputados e deputadas estaduais que se dizem do lado do povo?

Quanto vale uma vida, superintendente estadual do INCRA? Há mais de mês estamos insistindo por uma audiência com o senhor.

Pronunciem-se! Depois de tanto ser anunciado, de nada adiantará lamentar o sangue derramado no altar da hipocrisia. Se há um preço que a História sempre fez questão de cobrar, é sobre aqueles e aquelas que, no exercício do poder que lhes foi confiado, optaram pelo silêncio cúmplice com os inimigos do povo.

 

RETOMADA GREGÓRIO BEZERRA RESISTE!


“CHUVA DE MIJO NUNCA MAIS!”

(Ficção baseada e inspiradora de fatos reais) No dia 19 de dezembro de 2024, o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), sanciona, e...