sábado, 24 de janeiro de 2026

O QUE É QUE A LUTA PELA TERRA TEM A VER COM O VENENO NOSSO DE CADA DIA

Retomada Poeta Colibri, no Ceará, enfrenta atualmente as forças do latifundiário Zezinho Albuquerque, deputado estadual e secretário de governo.

 

Thales Emmanuel, militante da OPA.


Segundo o IBGE, 1% de proprietários controla metade das terras agricultáveis no Brasil. Os 99% restantes que se virem com a outra metade.

Se você teme o câncer, se se preocupa com a chegada da demência, se a depressão de algum parente lhe desassossega a vida, saiba que estas são doenças diretamente ligadas à estrutura agrária do seu país!

O agronegócio no Brasil, o modelo empresarial dominante na agricultura, parte da junção do latifúndio com a indústria capitalista, aquela que produz os agrotóxicos. Praticamente tudo é envenenado por conta deste pacto assassino, inclusive o que sua família come.

Para obterem o controle total das terras, os grandes proprietários expulsaram quem nela habitava. A luta indígena, quilombola, camponesa, a luta do povo trabalhador pela terra, sua resistência, é, pois, o contraponto primeiro, a mais elementar forma de enfrentamento quando pensamos em nos curar dos agrotóxicos e seus malefícios.

O uso de agrotóxicos no Brasil cresceu 700% em trinta anos, assim como cresceu a área controlada pelo modelo do agronegócio, assim como cresceram os novos casos de câncer, quase um milhão a cada três anos. Temos o pior índice de pessoas que sofrem com depressão e ansiedade da América Latina. O glifosato, herbicida mais consumido no país, tem sido associado a danos cerebrais e ao aumento do risco de demência. Não é mera coincidência!

A família camponesa - assentada da Reforma Agrária, pequena proprietária ou posseira - tem uma relação totalmente diferente com a terra. Ela mora lá, seus laços de afetividade são construídos lá. Se usa veneno, será a primeira a ser atingida. E quem gosta, em seu são juízo, de ser envenenado?

Isso quer dizer que o camponês não utiliza agrotóxico em sua produção? Seria absurdo acreditar que a imposição de todo um sistema não implicaria no uso dos químicos por parte de parcela dos trabalhadores. Obviamente, nada comparado à contaminação provocada pelo modelo empresarial. Vem dos movimentos populares, inclusive, a elaboração de alternativas saudáveis concretas para toda a sociedade, como a agroecologia.

Para concluir, se você quer manter distância do câncer, da depressão e da demência, se não curte agrotóxico em sua mesa, mas se invoca contrário ou contrária às ocupações ou retomadas de terra feitas por organizações populares, das duas, uma: ou é por desconhecimento ou por hipocrisia. E por desconhecimento agora não é mais.


 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

LATIFÚNDIO AMEAÇA E FAMÍLIAS TRABALHADORAS FECHAM ESTRADA EM PROTESTO




 

Equipe de Comunicação da OPA.


As famílias da Comunidade Poeta Colibri, no município de Morrinhos, Ceará, fecham, desde os primeiros minutos da manhã de ontem, 21/01, uma estrada que liga o distrito de Sítio Alegre ao município de Santana do Acaraú.


Estamos aqui para denunciar mais uma ordem de despejo de um doutor da lei contra a gente. Já convidamos juízes e a Comissão de Resolução de Conflitos Fundiários para visitar a comunidade. Vê essa terra: ela não produzia nada, estava abandonada por muitos, muitos anos. Comprove com os próprios olhos! Agora, desde que entramos, estamos trabalhando nela, produzindo alimentos para nós e para toda região. Aprendemos que fazenda grande abandonada tem que ser entregue para quem quer trabalhar nela. Tá na Constituição Federal! Zezinho Albuquerque não pode ser maior que a lei. Não pode! Tão tentando fazer com a gente o que estão fazendo com a Venezuela: invadir, despejar para roubar nossa riqueza! A terra é nossa mãe, nosso sustento, nossa maior riqueza! Por isso gritamos assim: Fora Trump da Venezuela! Fora Zezinho Albuquerque da Poeta Colibri”, declarou Maria Cleide, jovem moradora da comunidade, durante o protesto.

Quando as Forças Armadas dos Estados Unidos invadiram a Venezuela e, de olho em suas riquezas, sequestraram o presidente e a primeira-dama, muitos pensaram: “Esse Trump se acha o dono do mundo!”. No interior do Ceará, o deputado e secretário de governo, Zezinho Albuquerque, manobra mais uma vez para despejar as famílias da Comunidade Poeta Colibri. De igual maneira nos perguntamos: “Estará ele acima da lei?”

Trump passou por cima do direito internacional. Já no processo da Poeta Colibri, um dos juízes delegou descaradamente ao advogado do latifundiário, em audiência com participação dos trabalhadores!, o poder de suspender ou manter o despejo. Em outro episódio, um dos desembargadores que estiveram no caso afirmou que o despejo precisaria acontecer com rapidez. O motivo? “Venho recebendo pressão do proprietário”. Terá a sociedade dos “ricos cada vez mais ricos, às custas do povo, cada vez mais empobrecido” abandonado a necessidade das aparências?

O povo venezuelano quer sua soberania assegurada. Luta contra o invasor e pelo direito de decidir seu destino. As famílias da Poeta Colibri almejam sossego para trabalhar e viver com a dignidade merecida na terra retomada. Desde o começo denunciam várias violências vindas do latifúndio, como uma blitz ilegal na comunidade, comandada por seu segurança particular e feita com a presença de inúmeras viaturas da Polícia Militar; e o fogo criminoso que se alastrou na calada da noite contra bandeiras e a casa de um morador, destruindo-a parcialmente. Até boletim de ocorrência foi feito, mas a lâmina da Justiça, quando se move, é sempre na direção da comunidade. Por que será?

A última ordem de despejo, que permanece em aberto até o presente momento, foi emitida em dezembro de 2025 pelo juiz Fábio Medeiros Falcão de Andrade, da Comarca de Santana do Acaraú. Desde então, a tensão na comunidade é permanente.

Por que o juiz não se ordena fazer uma visita à comunidade? Por que a Comissão de Resolução de Conflitos Fundiários não aparece? Se um lado diz uma coisa, e o outro, outra, tem que vir conferir no local quem tá falando a verdade, não é, não? Quem vai ter a coragem de emitir a liminar de comprovação da verdade? É isso que o povo está cobrando, nem mais nem menos”, avaliou Thales Emmanuel, da coordenação da Organização Popular (OPA).

Não existe prazo estipulado para o destrancamento da estrada. O que as famílias trabalhadoras querem e precisam é de solução.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A LEI DE VANDERLEI

 


Por Thales Emmanuel, militante da OPA


     Conheci-o numa manifestação de rua contra os agrotóxicos, na região de Limoeiro do Norte, Ceará. Estava vermelho, e não era do sol. Fora envenenado na e pela empresa do agronegócio em que trabalhava. Numa análise laboratorial, descobriu alterações não naturais em seu código genético. Segundo a pesquisadora, aquilo indicava que logo em breve Vanderlei adoeceria de câncer.

    Aquele ser humano, trabalhador rural, proibido do acesso livre à terra, jogado na fila do desemprego e, assim, forçado a se submeter às mais desumanas condições para sustentar sua família, protestava, reivindicando o direito humano de viver como um humano.

    Seu grito vibrava para além de palavras atiradas contra os agrotóxicos. Ecoava contra as cercas de uma sociedade cujo deus é o dinheiro. Como pode um país desse tamanho, ter tanta gente sem um chão para plantar e morar? Sendo que a existência de uma só pessoa sem terra deveria ser motivo mais que suficiente para tornar todas os demais seres humanos insurgentes contra o sistema que isso provoca! Como pode o trabalho, a mais potente força divina de criação, ser sinônimo de exploração, desigualdade e adoecimento? À sua maneira, Vanderlei gritava mesmo era contra a sacralização da propriedade privada!

    Eram palavras contra políticos eleitos pelo povo, mas que tramam e conspiram contra o próprio povo. Afinal de contas, o veneno tá na lei, é autorizado com a única e cínica finalidade de engordar as gordas contas bancárias de uns poucos endinheirados, traficantes modernos de gente. Os navios negreiros de outrora continuam sua saga genocida em terra firme e, tal como antes, à luz do dia. A morte matada é planejada, conhecem-se as consequências e aplicam-se de maneira dissimulada a velha fórmula das correntes e açoites. Os capitalistas sabem bem para quem destinam as doenças geradas por sua sanha de lucro. “Na mansão, o fato não sensibiliza”. Vanderlei tinha plena consciência que sua vida não se esvaía por acidente. O lucro é um crime premeditado!

     Suas palavras eram mais que palavras. Eram frases de sentimento. Sentimento de carne e osso. Dezenas de milhões de carnes e ossos iguais a ele.

    Na primeira vez, estava de corpo inteiro. Na segunda, arrancaram-lhe um dos pés. No terceiro protesto, faltava-lhe uma perna. Na quarta, onde estava? Vanderlei, amputado membro a membro por conta do câncer, não mais existia. O que restara de seu corpo jazia agora em ensurdecedor silêncio.

     Mas o que os senhores da morte não sabiam era que, esquartejado como um Tiradentes, reduzido a partes de si mesmo, Vanderlei se tornava mais que um Vanderlei. Vanderlei se multiplicava. Propagava-se como semente ao vento, e por inteiro, na carne, nos ossos e nas palavras de quem, com coragem e sentimento, tocava em frente sua teimosa e humana lei de não-desistência.

    Essa é a lei, a lei de Vanderlei! O trabalhador que lutou até o fim da vida contra a morte matada e as leis que acumpliciam assassinos não confessos recebedores de honrarias sádicas.

    Vanderlei, a lei irrevogável, a lei que não morre jamais.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

MILAGRES NOS ANDES: VIDA ENREDO DA VIDA


 

Por Thales Emmanuel, militante da OPA.



    Esses dias assisti ao filme A Sociedade das Neves, dirigido por J. A. Boyona. Lançado em 2024, ele retrata a história real de um acidente aéreo envolvendo um time amador de rúgbi, de Montevidéu, Uruguai. O avião se chocou contra uma montanha quando atravessava a Cordilheira dos Andes em direção a Santiago do Chile. Era 13 de outubro de 1972.

    Das 45 pessoas a bordo, 12 morreram no momento da colisão. Outros tantos nos dias imediatamente seguintes, decorrentes dos graves ferimentos. O frio extremo também levou algumas vidas. Fazia menos 30°C às noites. Não fosse o calor do abraço, todos teriam partido.

    Dez dias depois da queda, as operações de resgate foram interrompidas. Nunca ninguém sobrevivera nos Andes em tais condições! Nesse mesmo período, acabou a comida e os vivos começaram a se alimentar da carne dos amigos mortos. Quando a dificuldade parecia chegar ao limite máximo, eis que duas avalanches os soterram no pedaço de avião que servia de abrigo. Passaram alguns dias enterrados na neve.

    O avião caiu numa região das mais inóspitas e de difícil acesso; porém, entre uma montanha e outra, havia uma brecha, um paredão menor, que evitou a colisão frontal. Depois, apareceu um longo declive de neve sem rochas afloradas, uma espécie de escorrego natural, em ângulo quase perfeito para pousos sem asas, sem trem de pouso e com aeronave cortada ao meio. Tudo milimetricamente ajustado!

    Há milagres que simplesmente acontecem. Nestes, até o mais elaborado “por quê?” não ultrapassa a casca superficial dos fatos. Isso já é em si mesmo fascinante. Porém, o que mais chamou minha atenção foi como os sobreviventes conduziram a luta coletiva pela vida.

    O capitão do time de rúgbi, Marcelo, deu a primeira ideia: “Vamos guardar os alimentos tudo numa mala só!” E, a partir dali, a propriedade privada dos itens necessários à sobrevivência de todos foi abolida. A comunhão se tornou a base das relações materiais, que se tornou a base das relações pessoais, e vice-versa. Uma nova sociedade nasceu: A Sociedade Comunista da Neve!

    A exceção dos inaptos, todos se viravam para fazer alguma coisa. Retirar os bancos para ampliar o espaço interno, distribuir racionalmente a comida, preparar expedições no território, cuidar dos feridos, derreter o gelo para beber a água, e por aí vai.

    Na Sociedade da Neve não havia patrão nem privilegiados. Alguns se despontavam como líderes, mas seu poder não era maior do que o de ninguém. Todas as habilidades estavam a serviço da coletividade, da vida. A igualdade na Sociedade da Neve não tinha nada a ver com a supressão das diferenças individuais.

    Na Sociedade da Neve não havia morador de rua nem aluguel. Não havia esmola nem esmoléu. Nenhum filantropo rico existia por lá. E com ele se foi também a demagogia. A camaradagem não precisava de estímulos artificiais, posto que se retroalimentava da própria essência da organização social. Com o tempo, nem “obrigado” se dizia, nem favores se devia. Cada amigo era verdadeiramente um irmão. Na Sociedade da Neve não existia dinheiro. “Comprar pra quê, se já me pertence?”

    Agora imagine se não tivessem revolucionado a organização da vida, já pensou como seria? Quanto tempo duraria? Quanta desconfiança teriam uns dos outros? Quanto adoecimento mental evitável inevitariam? Quem seria o pai da indústria farmacêutica a anestesiar as dores existenciais? Onde prenderiam os que, privados de abrigo e de comida, roubariam? Quem policiaria a sociedade? Quem mandaria na polícia? Numa Sociedade Capitalista da Neve, todos se devorariam ainda em vida! Mas espera aí! Realizariam uma revolução antes do fim? Quem a realizaria?

    Após 72 dias enfrentando condições extremas, os 16 sobreviventes foram finalmente salvos. Um dos resgatistas, que precisou ficar no local até amanhecer o dia, teve medo de ser canibalizado e passou a noite em claro, numa barraca distante e separada dos demais. Ele não entendia da educação na Sociedade da Neve. De onde veio, as relações se edificam segundo princípios bem diferentes. Lá, salvar vidas é apenas uma profissão.

    Há milagres que não se explica. Decerto, há outros que, como obra conscientemente humana, são racionalizáveis. Sem estes, nenhuma sobrevivência seria possível, nem ontem nem amanhã, nem hoje; na neve ou em qualquer lugar...

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

PRODUÇÕES - Comunidades Dom Fragoso e Gregório Bezerra



 

Equipe de Comunicação da OPA


     Uma é formada por 23 famílias, a outra por 80. Ambas nasceram da luta, da ocupação de latifúndios improdutivos no município de Jaguaruana, Ceará. Do ponto de vista do direito burguês, a situação delas segue sem resolução. Uma sobreviveu a algumas ordens de despejo, chegando a ser invadida por um trator da carcinicultura, a criação empresarial de camarão, momento em que trabalhadoras e trabalhadores o colocaram para fora na marra. Além das ordens de despejo, a outra resistiu por seguidas semanas à ofensiva de jagunços armados e encapuzados. Fora essas questões, o que as comunidades Dom Fragoso e Gregório Bezerra têm em comum?

    Esta semana foi divulgado o levantamento da produção das duas comunidades. Na Dom Fragoso, registraram-se mais de 55 espécies diferentes, plantadas pelas famílias desde o primeiro dia da ocupação, em 01 de maio de 2021. São cereais, frutíferas, hortaliças, plantas de uso medicinal, oitenta pés de sabiá para extração de madeira.

    As famílias criam sete tipos diferentes de animais, como 403 aves de pequeno porte e 40 porcos. Todo mês, a comunidade abastece a vizinhança com aproximadamente 1000 molhos de cheiro verde, além de uma boa diversidade de outros produtos. Quem for fazer uma visita e por força do acaso adoecer da garganta, saiba que não faltará limão, eucalipto para fazer o óleo ou o chá, a romã, a hortelã, açafrão... Existem 47 pés de acerola e quase 3000 cajueiros para não deixar ninguém gripar. Ah!, há casas, elas são erguidas com madeira local, que se embelezam com lindos jardins floridos.

    A Gregório não é muito diferente. A variedade de espécies plantadas e criadas também é uma marca. Lá se colheu quase 20 toneladas de feijão este ano. Mais de 4 toneladas de melancia, mais de 5 de milho e mais de uma de melão. São oito tipos distintos de animais que as famílias criam. Como na Dom Fragoso, a comunidade Gregório Bezerra existe sem água encanada e sem energia elétrica. Ainda assim, não falta batata, macaxeira, gergelim, jerimum…

    Vale lembrar que toda essa produção ocorre em meio à luta contra as forças do latifúndio, que ainda controla parte da terra da Gregório com a presença de pessoas a ele ligadas. Organização da vida em área de conflito!

    Em relação aos venenos agrícolas, os chamados agrotóxicos, dentre as 103 famílias somadas, aproximadamente 25 usaram-nos este ano, e em plantas de ciclo curto, com aplicações pontuais. Destas 25 famílias, mais de 80% se valeram de produtos classificados pela legislação como de menor toxidade.

    Os dados que nos chegam sobre a produção nas duas comunidades são emblemáticos, sobretudo para imaginarmos como seria a vida em sociedade se não fosse a questão agrária no Brasil do jeito que é.

    Seu Cióta, por exemplo, com seus quase 80 anos, plantou e colheu pela primeira vez em sua vida sem as ordens do patrão quando passou a construir a Gregório Bezerra. Pela primeira vez não teve que entregar metade ou a terça parte do que produziu para um suposto dono da terra que nada fez. Todavia, não tivesse ele, junto com sua família e outros companheiros e companheiras, resistido à invasão jagunça, teria conseguido?

    Essas famílias camponesas agora vivem em comunidades organizadas, cuja disciplina é constituída de uma substância bem diferente daquela da época do latifúndio. Ela existe para que todas e todos estejam no mesmo patamar, com o mesmo poder de questionar, sugerir e decidir, e com igual responsabilidade em assumir o que for definido coletivamente. Esta disciplina existe para gerar participação, e não submissão.

    Isso dá medo à classe dos grandes proprietários. Obviamente que latifundiários não gostam, mas também não se aperreiam tanto com a perda de latifúndios improdutivos. Até porque o Estado os paga muito bem por eles. Sem contar que eles possuem seus mecanismos de contenção da luta dos trabalhadores. Por isso, mesmo com toda histórica e encarniçada luta camponesa, o Brasil continua nos primeiros postos dos países de maior concentração de terras do planeta.

    O que os ricos capitalistas temem é que a luta ensine, é que os trabalhadores e trabalhadoras aprendam com a participação organizada que não haverá sossego, paz e sequer futuro sem uma revolução que derrube dos tronos os opressores e eleve os humildes, através do Poder Popular.

    Como lembra o camponês e militante Luciano Gomes, morador da Comunidade de Resistência Terra Esperança, o pavor deles é que a produção de alimentos caminhe junto com a produção da consciência.


quinta-feira, 19 de junho de 2025

OCUPAÇÃO POETA COLIBRI: QUE A JUSTIÇA SEJA FEITA

 


 

Nenhum camponês sem terra

Nenhuma família sem casa

Nenhum trabalhador sem direitos

Papa Francisco

 

 

      Ontem, 18/06, houve uma audiência virtual na busca por uma solução mediada para o conflito entre o latifundiário secretário de governo e deputado estadual, Zezinho Albuquerque, e as famílias da Ocupação Poeta Colibri, localizada nas imediações do distrito de Sítio Alegre, município de Morrinhos-CE.

      Tanto o IDACE quanto a Defensoria Pública, depois de visitarem a área, apresentaram laudos técnicos divergentes daquele elaborado pelo oficial de justiça, mas é este último o que vem sendo utilizado pelo juiz Gustavo Ferreira Mainardes para justificar a ordem de despejo dada por ele contra a comunidade.

      Segundo relatos de moradores da Poeta Colibri, o oficial de justiça, nas duas vezes em que foi ao local, mostrou-se visivelmente tendencioso, ao questionar repetidamente os agricultores “por que justamente a fazenda do deputado Zezinho Albuquerque, e não outra?”

      Como se a Constituição Federal, que determina a desapropriação para fins de Reforma Agrária de latifúndios improdutivos, não valesse para o latifúndio improdutivo do deputado!

      Sem contar que quando há discordâncias do tipo, sobretudo entre departamentos do mesmo Estado, subentende-se que o mais sensato seria proceder com uma ida ao local, conhecer a realidade de perto antes de se emitir qualquer posição. Por sinal, este é o desejo sincero da comunidade, que reitera o convite para uma visita do doutor Gustavo.

      A audiência se desenrolava para a marcação da bendita inspeção técnica, quando um representante da Comissão de Conflitos Agrários, principal instância mediadora, solicitou, com absoluta razão, um prazo adequado para a execução dos trabalhos, tendo em vista que os dez dias determinados para o cumprimento da ordem de despejo já se vencem, em tese, domingo próximo.

      Para surpresa de quase todos os presentes, o juiz do caso, doutor Gustavo, fez foi revalidar o laudo suspeito do oficial de justiça como embasamento exclusivo da verdade, deixando assim a cargo da parte autora, ou seja, do latifúndio, o poder de decidir se suspenderia ou não a ordem de despejo, para que a comissão pudesse realizar a inspeção. E o latifúndio disse “não”, não suspenderia.

      É verdade que a crença em uma Justiça justa ficou ainda mais distante das consciências das famílias trabalhadoras da comunidade Poeta Colibri. Mas é fato também que a disposição de lutar até o final para que a justiça seja feita ganhou uma carga adicional de energia depois desta audiência.



Equipe de Comunicação da OPA

 
 
 





quarta-feira, 18 de junho de 2025

AMEAÇADAS DE DESPEJO, FAMÍLIAS CAMPONESAS HASTEIAM BANDEIRAS DA PALESTINA E DENUNCIAM: “O POVO PALESTINO TEM DIREITO À TERRA, E NÓS TAMBÉM. RESISTIREMOS!”

 

 
 
 

Equipe de Comunicação da Organização Popular - OPA




    Se você passar numa das estradas carroçáveis do município de Morrinhos, localizado a aproximadamente 211 km de Fortaleza, no Ceará, pode se deparar com um cenário inesperado: inúmeras bandeiras da Palestina hasteadas em frente a uma propriedade rural.

    Ali se encontram 52 famílias agricultoras sem terra, prontas para resistir a uma ação de despejo movida pelo secretário de governo e deputado estadual, Zezinho Albuquerque.

    A Ocupação Poeta Colibri, como as famílias a batizaram, nasceu em setembro de 2024, quando dezenas de trabalhadoras e trabalhadores do distrito de Sítio Alegre, no município de Morrinhos, entraram num conhecido latifúndio que há muito não cumpria com sua função social, como determina a Constituição Federal.

    As famílias nativas literalmente ocuparam a terra! Em nove meses, cultivaram uma diversidade incontável de alimentos, melhoraram as estruturas e estavam construindo suas vidas ali quando receberam uma liminar de reintegração de posse, uma ordem de despejo, emitida pelo juiz de Santana do Acaraú, Gustavo Ferreira Mainardes.


O doutor juiz precisa chegar aqui para conhecer a realidade. A terra não produzia nada há uns 20 anos. Somos famílias aqui da região, nativas. Sabemos o que estamos dizendo e também o que estamos fazendo. Temos direito a essa terra. Alguns de nós têm sim uma casinha simples na cidade. Isso não tira nosso direito, porque ninguém tem terra. Se o juiz vier, será muito bem acolhido, terá a oportunidade de conhecer nosso lugar e comer de nossa produção. Trabalhamos na terra e precisamos dela para plantar”, comentou seu Aristides, integrante da Poeta Colibri.


    Com a apreensão gerada ante a iminente repressão por parte do Estado, reunindo-se e assistindo ao que ocorre com o povo palestino, a identificação se fez inevitável:


O povo palestino é gente que não é tratado como gente, igual a nós. O povo palestino tem direito à terra e a viver como qualquer outro povo do planeta, igual a nós. O governo de Israel está querendo tirar eles do mapa. O deputado e o juiz estão querendo fazer a mesma coisa com a gente. Por isso fincamos essa ruma de bandeira da Palestina, porque nós somos a Palestina e a Palestina somos nós. É pela vida. Nós lutamos pela vida!”, continuou seu Aristides.

 

    O deputado Zezinho Albuquerque apresentou documentos que comprovariam a propriedade de apenas uma pequena parcela do latifúndio abandonado.

    O magistrado Gustavo Ferreira Mainardes não considerou o índice de produtividade, necessário ao cumprimento da função social da terra. Decretou o despejo justificando que os trabalhadores possuem casa e concedeu dez dias para que as famílias saiam com seus pertences, incluindo a colheita do que for possível, sob pena do uso da violência.

    Pessoas, comunidades e entidades, a par da injustiça flagrante, somam-se à luta e afirmam estar dispostas a resistir até o final com a Poeta Colibri.

    A comunidade cobra dos governos uma inspeção técnica da área e convida, muito respeitosamente, o juiz para uma visita, para que emita seu parecer depois de conhecer com os próprios olhos a realidade. Além de resistir, tal e qual o povo palestino, no direito de existir.


 

O QUE É QUE A LUTA PELA TERRA TEM A VER COM O VENENO NOSSO DE CADA DIA

Retomada Poeta Colibri, no Ceará, enfrenta atualmente as forças do latifundiário Zezinho Albuquerque, deputado estadual e secretário de gove...